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quarta-feira, 27 de outubro de 2010

A Igreja e a democratização da comunicação

Resenha dos três primeiros capítulos da obra de Joana Puntel na perspectiva da história do processo comunicacional da Igreja

INTRODUÇÃO

O presente trabalho refere-se ao módulo História da Comunicação, do curso de especialização Cultura e meios de comunicação: Uma abordagem teórico-prática, realizado no SEPAC no mês de julho de 2010. Objetiva, através de uma síntese, expressar o processo de aprendizagem e da busca de complementação daquilo que se estudou no terceiro módulo do curso.

Conforme a orientação, a base deste trabalho é a obra Igreja e democratização da comunicação, de Joana T. Puntel, mais especificamente os seus três primeiros capítulos, do quais se apresentará uma síntese. A segunda parte, conforme o costume, estabelecerá relações diretas e indiretas entre aquilo que o livro apresenta e o conteúdo das diversas aulas ministradas no decorrer do curso, inclusive no que se refere ao laboratório.

Quanto a essa primeira parte, dar-se-á a partir da estrutura elaborada pela própria autora, dividindo em três tópicos conforme a orientação dos capítulos. No primeiro tópico, abordar-se-á a relação entre a Igreja Católica e as tecnologias da comunicação, descrevendo o desenvolvimento histórico e teórico da comunicação nos diversos momentos da Igreja. O segundo abordará a teologia da Libertação, como uma nova maneira de evangelizar, com abertura às perspectivas de cultura popular, assim como de Igreja popular. Em continuidade, o terceiro discorrerá sobre a Igreja Católica e a comunicação na América Latina, numa análise histórica e sócio-cultural, usando de referências de documentos do CELAM, principalmente Medillín e Puebla.

Por sua vez, o segundo momento do trabalho objetiva colocar pontos de diálogo entre as exposições de sala de aula e o conteúdo apresentado por Puntel na parte de sua obra. Essa parte do trabalho ajuda a ampliar horizontes, assim como contextualizar e atualizar a narrativa do processo histórico comunicacional da Igreja, apresentando brevemente alguns documentos mais recentes nesse sentido.

As considerações finais deste último trabalho são, além das reflexões acerca do assunto e impressões daquilo que se apresentou, observações do curso de modo geral. Desse modo, o trabalho que segue é fruto de observações, anotações, leitura, reflexão, questionamentos e, por último, de aprendizado real, sendo também ele material para tal conquista.

Capítulo I

A IGREJA E A DEMOCRATIZAÇÃO DA COMUNICAÇÃO

No seu conjunto, a obra A Igreja e a democratização da comunicação, de Joana T. Puntel (1994), é a publicação de sua tese de doutorado, defendida em 1992, na Universidade Fraser, no Canadá. Nela, Irmã Joana apresenta a trajetória histórico-cultural de desenvolvimento da Igreja na América Latina, no que se refere à comunicação, principalmente na sua relação com a participação popular, que chama de democratização. Isso, ao dizer que o estudo “analisa como a Igreja católica na América Latina tem proposto democratizar a comunicação” (PUNTEL, 1994, p. 9).

José Marques de Melo, no prefácio da obra, afirma que o rompimento do silêncio secular, a que estiveram condenados os maiores contingentes da população, especialmente os povos de classes menos favorecidas, é a marca da comunicação eclesial daqueles últimos 30 anos. Nesse sentido, diz que Puntel não apenas contextualiza esse momento importante, mas também o atualiza, com dados instigantes para reflexão.

A abordagem desses três primeiros capítulos traçará um percurso histórico, no qual Puntel (1994) relata o desenvolvimento da comunicação na Igreja, tanto em relação ao Vaticano, como na América Latina, nessa perspectiva da democratização.

1.1 – A relação entre a Igreja Católica e as tecnologias da comunicação

Puntel (1994) lembra que nos primórdios da Igreja o modelo de comunicação da fé era essencialmente o testemunho dos cristãos, uma vez que se vivia em um modelo de Igreja mais participativo. Com sua expansão, a estruturação da hierarquia é a saída para sua organização mais efetiva, através de uma relação de autoridade, entendida como a hierarquia que centraliza a tomada de decisões.

Com a invenção da imprensa, a Igreja começa a pensar a questão dos meios de comunicação, abordados pela primeira vez em 1487 por Inocêncio VIII no Inter Multiplices, definindo a posição da Igreja em relação à mídia impressa, que na visão desse papa poderia ameaçar a o domínio da Igreja sobre a produção cultural. Esse pensamento consolida-se em 1559, quando Paulo IV lança o Index, confirmado pelo concílio de Trento.

A abertura da Igreja inicia-se no pontificado de Leão VIII, entre 1878 e 1903, quando pela primeira vez o papa concede uma entrevista coletiva a jornalistas. Começou também o uso dos meios para a evangelização, já que “se a sociedade estava utilizando os meios para difundir o mal, então a Igreja também deveria usar esses meios para difundir a boa mensagem, de modo a combater esse mal” (PUNTEL, 1994, p. 33-4). No entanto, logo após seu pontificado, Pio X desautoriza essa visão progressista, proibindo a leitura e a produção para meios impressos de comunicação.

Foi Pio XI que, em 1928, criou OCIC (Organização Católica Internacional para o Cinema), a partir de seu interesse pessoal na nova tecnologia, mencionando em Vigilanti Cura (1936), dirigida aos bispos dos EUA, seu enorme potencial. Segundo o papa referido, não se encontra meio mais potente que o cinema para exercer influência sobre as multidões, uma vez que o cinema é, na realidade, uma lição direta que, para o bem ou para o mal, ensina a maioria das pessoas por razões mais concretas que abstratas. Pio XI manifesta ainda alguma desconfiança com relação ao seu uso, pois parece preocupado com seu impacto psicológico nas pessoas.

Contudo, apesar de Vigilanti Cura tratar de uma legião da decência, que boicotasse produções consideradas imorais, é um importante documento no sentido de que foi a primeira vez que a Igreja Católica menciona o cinema e o faz com alguma propriedade, não expondo uma visão pessimista, mas ressaltando a “necessidade de desenvolver uma ação alternativa que se oponha ao que é considerado negativo ou mau” (PUNTEL, 1994, p. 38).

Já com Pio XII, a Igreja ampliou as discussões e abriu mais aos meios, principalmente quanto à formação da opinião pública. É quando surge Miranda Prorsus (1957), que destaca o cinema, o rádio e a TV, sob a denominação comum de comunicação, representando a primeira grande síntese da doutrina católica sobre a comunicação social. Embora expresse as preocupações do papa, considera que a criatividade empenhada nesses meios são dons de Deus, dando-lhes boas vindas. Contudo, Miranda Prorsus tem um caráter muito pastoral, que instrui sobre o uso e a regulamentação dos meios.

No entanto, o grande passo da Igreja Católica no que se refere à abertura de si mesma, foi o Concílio do Vaticano II, no qual a Igreja começa a reconhecer e entender o mundo complexo, com perspectivas sociais. Nesse concílio, o segundo dos dezesseis documentos aprovados foi Inter Mirifica (1963), que é a aceitação oficial dos meios de comunicação para um trabalho pastoral feita pela Igreja. Diz que “a Igreja tem, pois, um direito radical de possuir e usar desses meios como úteis à educação cristã e ao seu trabalho em vista da salvação das almas” (IM 2003, p. 71).

Puntel (1994) lembra que o texto original de Inter Mirifica continha 114 artigos, dos quais apenas 24 foram aprovados. Mesmo assim, teve a maior votação contrária. Essa rejeição, a autora atribui a diversos movimentos surgidos no momento, carregados de críticas, tanto de jornalistas americanos, como de europeus, que tiveram fortes influências sobre os bispos participantes. Ainda assim, Inter Mirifica é de grandiosa importância para a Igreja, principalmente na sua colocação acerca do direito de informação, como um bem social, sobre o qual afirma: “é intrínseco a sociedade humana o direito a informação sobre aqueles assuntos que interessam aos homens e as mulheres”... “conforme as condições de cada um” (IM 2003, p. 72). Também é no decreto Inter Mirifica que se institui o Dia Mundial da Comunicação, o único criado a partir de um concílio da Igreja.

A resposta pastoral ao Inter Mirifica foi expressa em Communio et Progressio, de Paulo VI em 1971. É carregada de mentalidades evoluídas pós-concílio e traz de modo esperançoso e otimista incentivo ao uso dos meios, já com tecnologias desenvolvidas em um diálogo com a sociedade contemporânea. Afirma, segundo Puntel (1994), que a comunicação é um elemento que articula qualquer atividade da Igreja e reconhece a legitimidade da formação da opinião pública, dentro dela. Dá a mídia caráter de força benéfica e valoriza o progresso tecnológico. Contudo, permanece a visão estrita do uso dos meios, desconsiderando todo o processo de produção midiática.

1.2 – Teologia da libertação – uma nova maneira de evangelizar

A partir da terminologia Teologia da Libertação já se delimita o estudo à America Latina. Trata-se assim de uma nova tendência teológica surgida no início dos anos 1960 em vista de mudanças estruturais, principalmente na participação na educação e na política. Usando do Concílio do Vaticano II, como pano de fundo, a teologia da libertação se desenvolve com expoentes como Gustavo Gutierrez, que a expôs na Conferência de Chimbote em 1968.

O fato delimitador é a constatação da diferença de desenvolvimento entres os países ricos e os chamados de terceiro mundo, principalmente os latino-americanos, dos quais os bispos em Medellín afirmaram ser marcados pela transformação e pela violência institucionalizada. Concluindo que “homens e mulheres não são objetos, mas agentes da própria história” (PUNTEL, 1994, p. 79). A ideia de libertação do homem vai ganhando espaço, principalmente na afirmação da opção preferencial pelos pobres, enfrentando a pobreza como um problema estrutural, não apenas individual. Anima-se também a ideia de participação, incluindo os leigos ativamente na vida das comunidades.

O próprio Gutierrez, segundo Puntel (1994), considera que a teologia deve ser um esforço de intelecção da fé, conciliando fé e conhecimento racional. Nesse sentido, para ele, a reflexão teológica deve despertar “uma atitude crítica frente aos efeitos econômicos e sócio-culturais na vida e na reflexão da comunidade cristã” (PUNTEL, 1994, p. 82). A libertação, embora fosse de encontro à ignorância, à alienação, à pobreza e à opressão, tinha uma significação bem maior, que é a compreensão da história, o que se liga mais diretamente a tomada de consciência acerca da responsabilidade com relação ao próprio destino, que seria o motor da história, transformando-a.

No entanto, a Igreja oficial manifestou temor com relação às atitudes da teologia da libertação, que falava em Igreja popular, interpretada como possibilidade de surgir uma igreja paralela. A relação da teologia da libertação com o marxismo também preocupou a Igreja. Diante disso, represálias aconteceram, como a punição ao teólogo brasileiro Leonardo Boff. Contudo, essas perseguições são fruto de interpretações distorcidas dos verdadeiros ideais de transformação sustentados pelos libertadores.

Puntel (1994) considera as controvérsias acerca da teologia da libertação, mas reconhece sua importância na formação de muitas atividades na Igreja latino-americana nas últimas décadas. Além disso, “a maneira de pensar a fé, a luz da conjuntura social, influenciou também as atividades da Igreja no campo da comunicação” (PUNTEL, 1994, p. 99). Sobre o que, discorre no ponto seguinte.

1.3 – A Igreja Católica e a comunicação na América Latina

A autora inicia essa parte do livro remontando às formas de comunicação e celebração da Igreja oficial arraigadas no passado colonial ibérico, durante o qual a Igreja refugiava-se no poder político para conservar sua influência cultural e religiosa. Depois, com o processo de modernização e secularização do setor técnico urbano, os valores religiosos diminuíram e a Igreja se viu menos detentora do poder. Em decorrência disso, há um direcionamento da atenção da Igreja aqueles que, de fato, mantinham-se firmas na fé, ou seja, os mais pobres, principalmente lavradores e trabalhadores urbanos imigrantes. É, em parte, uma síntese do que levou a pensar a teologia da libertação.

Começam então as organizações religiosas para a promoção humana dos fiéis. Essas, por exemplo as iniciativas de rádios educativas, serviram-se da comunicação não só para promover, mas também para evangelizar. A primeira dessas rádios foi a Sutatenza, na Colômbia, que alfabetizava e educava através do empenho de líderes religiosos com instruções radiofônicas. No Brasil, o Movimento de Educação de Base (MEB), surgido em Natal (RN), foi um exemplo dessas iniciativas radiofônicas. A CNBB logo expandiu o projeto que chegou a mais de 40000 mil alunos. No entanto, em 1964, o material intitulado Viver é lutar foi confiscado, por acusação de comunismo. Depois do golpe militar, outras perseguições tornaram o MEB quase que inexistente, embora, segundo Puntel (1994), exista ainda de outras formas.

A partir das Conferências Episcopais de Medellín e Puebla, a questão da comunicação passou a ser mais efetivamente tratada na Igreja latino-americana. A criação do DECOS (Departamento de Comunicação Social) do CELAM foi importante passo para a articulação da Igreja na América Latina. Surgem depois outras organizações como a UNDA, a OCIC e a UCLAP, que foram importantes na organização dos comunicadores do continente.

A autora cita Fuenzalida, para quem no contexto latino-americano existiram quatro modelos de prática pastoral. Um que estabelecia organizações de mídia, no outro já havia a presença da Igreja na mídia, o terceiro é o uso dos meios de comunicação de grupo e o último, chamado alternativas da NOMIC (Nova Ordem Mundial de Informação e Comunicação, surgida em Embu, 1982), que deveria oferecer uma nova participação do público na mídia. Esses modelos, “segundo Fuenzalida, representam estágios importantes da Igreja em sua relação com a comunicação” (PUNTEL, 1994, p. 114), embora coexistam e precisem ser bem trabalhados.

Surge então um contexto de mudanças sociais, culturais, econômicas e políticas. Nesse processo a própria Igreja latino-americana se reconhece transformadora. No caso da comunicação, começa valorizar o papel dos comunicadores. Contudo, o traçado de Medellín sobre a comunicação considera os meios de comunicação como superpoderosos, com capacidade de incrementar o desenvolvimento, com ação profunda na vida dos homens, direcionando-os ao bem comum.

Mas começa uma visão diferente que enfoca os mini-meios, chocando com o imperialismo cultural sustentado, em grande parte, pelos meios massivos. Desenvolve-se então a micro-mídia, principalmente nas comunidades eclesiais de base. Acontecem, sob orientação do DECOS, vários seminários que discutem essa questão, como o de Melgar, em 1970, que abre perspectivas libertadoras para a comunicação. O documento Perspectivas do Comunicador Social, de 1974, faz críticas aos meios massivos, considerando-os inadequados para a evangelização. Tais críticas, foram interpretadas por vezes como desacordo com os documentos Communio et Progressio e Evangelii Nuntiandi, já citados, da Igreja oficial.

Já em 1979 acontece a Conferência Episcopal de Puebla. No ano anterior, para sua preparação, o DECOS elabora o documento Evangelização e a Comunicação Social na América Latina, que é o primeiro documento da Igreja Latino-americana sobre comunicação, com colocações claras e objetivas, reconhecendo a importância dos meios de comunicação para a promoção e formação de consciência humana. O Documento de Puebla, por sua vez, trata bem a questão da comunicação, denunciando por um lado o controle e a manipulação ideológica, exercidos pelos grupos poderosos através da mídia, mas, por outro, afirmando que a evangelização não pode deixar de usar os meios.

No entanto, o mais importante de Puebla, segundo a autora, é que a Igreja valoriza os meios de comunicação, mas incentiva o uso da comunicação popular que leve em conta um processo dialógico e participativo. Seguindo essa ideia, na década de 1980, o Celam cria o SIAL (Serviço Informativo da América Latina), um sistema de intercomunicação que devia contribuir para uma crescente interrelação entre o CELAM e as conferências nacionais, chegando aos fiéis, com informações seguras e evangelizadoras.

Com esses incentivos, começam ganhar espaço modelos de comunicação grupal e popular. A comunicação grupal na Igreja se afirma em propósitos de libertação, dirigindo-se às classes marginalizadas que procuram oportunidades de comunicação grupal para conseguirem novas formas de relações humanas conscientes. Destaca-se nesse sistema, a forma de educação do brasileiro Paulo Freire, contra o sistema bancário, valorizando pequenos grupos de convivência e discussão. Já a comunicação popular destaca-se na produção de folhetos e jornais e diversas outras formas de comunicação, produzidas localmente, que representem a identidade de seus grupos gestores.

Capítulo II

HISTÓRIA DA COMUNICAÇÃO: RELAÇÃO LIVRO – SALA DE AULA

Como se viu, a obra A Igreja e a Democratização da Comunicação traz em seus três primeiros capítulos um apanhado histórico da evolução da comunicação no processo histórico da Igreja latino-americana. Com certeza, esse processo reflete de alguma forma a evolução da comunicação não só na Igreja oficial Romana, também no seu cenário técnico e cultural, com as invenções e discussões que permeiam todo esse desenvolver. É parte do que se viu no terceiro módulo.

Na primeira aula, Sílvia Borelli[1] abordou a relação entre comunicação, cultura e história. Segundo a professora, historicamente os campos são considerados em separado. Mas se interagem à medida em que se considera o processo da comunicação que se desenvolve neles. Chama a atenção para se pensar os impactos das transformações no ângulo dos produtores e dos receptores, numa análise das narrativas presentes nesse processo.

A dinâmica que compreende a passagem da oralidade à escritura e da escritura à imagética, tão bem abordada por Sílvia, relaciona-se ao que Joana Puntel (1994) descreve ao longo dos três capítulos de sua obra. Nessa perspectiva, pensa-se na Igreja, e nas tradições cristãs, que se originaram dos discursos, experimentados e transmitidos pelo testemunho cristão, depois, com o avanço das ideias de comunicação, escritos, reproduzidos e mais tarde, ilustrados.

Falando sobre o Jornalismo, irmã Joana Puntel[2] retomou um conceito, estabelecido por Clóvis Rossi, segundo o qual, jornalismo é uma fascinante batalha pela conquista das mentes e corações de seus alvos: leitores, espectadores ou ouvintes. Retomou dados históricos, a partir da invenção da imprensa, como ponto chave, mas principalmente seu desenrolar no Brasil, com a abertura da imprensa oficial em 1808. Citou também fatos concretos de sua experiência de jornalista, principalmente durante o regime militar brasileiro. Menciona também o aparecimento dos meios alternativos de comunicação. A professora usou ainda o documentário Imagem e Imaginário, da PUC/SP, a partir do qual vários comentários ressaltaram as brechas e as facetas do jornalismo televisivo, carregado de ideologias e de sensacionalismo.

Esses elementos tratados em aula associam-se ao pensamento representado no livro. Mas a relação mais direta é a que se faz a partir da aula sobre a história e os desafios da comunicação na Igreja. Nesse sentido, irmã Joana fez, em sala, referência a todos os documentos citados no livro. Indo além, atualizou dados, levou mais em consideração a questão digital e os efeitos pós-modernos na comunicação e na Igreja. Além disso, mencionou fatos e documentos surgidos de 1994 para cá, como Ecclesia in Africa (1995), Ética na publicidade (1997), Ética nas comunicações sociais (2000), Igreja e internet (2000), O rápido desenvolvimento (2005) e Documento de Aparecida (2006). Neste último, pela primeira vez o CELAM toca a questão da comunicação numa perspectiva de pastoral.

Irmã Helena Corazza[3] tratou do rádio na sua relação com a sociedade. Abordou-o historicamente, sua invenção, desenvolvimento, chegada ao Brasil, primeiras transmissões e sua popularização. Contudo, chamou a atenção para pensar o rádio além de um meio, mas como um canal de comunicação. Lembrou, como citou Puntel (1994), sua relação com a educação popular, mas destacou sua importância como veículo de informação e de prestação de serviços. A professora ainda destacou a presença do rádio nos tempos atuais, relembrando a não excludência das mídias, uma vez que ele se incorpora, como por exemplo, nas web-rádios e rádios online. Relaciona-se também com a obra de Puntel (1994), no sentido de que o rádio, com possibilidade de ser comunitário, apresenta-se um excelente canal de comunicação alternativo, podendo dar voz às pequenas comunidades e aos grupos minoritários da Igreja e da Sociedade.

O professor Francisco Serralvo[4] explanou a questão histórica do marketing e da propaganda, trilhando o percurso da organização do trabalho, desde o artesanato, passando pela manufatura até chagar no produto industrializado. Trata de como esses produtos se apresentam, naquilo que são e naquilo que seus usuários esperam deles. Quando o professor diz que “ninguém compra uma furadeira, mas o furo na parede que se apresenta sob a propaganda de uma determinada marca”, ele afirma a lógica do mercado contemporâneo, segundo a qual as empresas buscam conhecer a necessidade e o desejo das pessoas para oferecer a elas produtos com características tais que as satisfaçam.

Embora na obra de Puntel (1994) não se abra claramente a discussão acerca da publicidade, sabe-se da preocupação da Igreja com relação a uma postura ética da publicidade, no sentido de não apenas explorar o consumo, mas de oferecer bens que ajudem na promoção humana. Em suma, a ideia de libertação, apresentada pela autora e experimentada na América Latina, traduz um pouco esse anseio tão presente hoje de escapar de um imperialismo econômico e cultural, podendo o homem encontrar-se consigo mesmo, num profundo diálogo com a sociedade e a cultura de seu tempo.

Nas duas aulas que ministrou, o professor Edmilson Felipe[5] abordou a questão da imagem. Procurando desenvolver o tema tanto na sua relação com o cinema, com a TV e com as mídias eletrônicas. Lembrou que a expansão da TV motivou a aceleração da informação. Analisou ainda as relações entre essas novas mídias com suporte para a imagem, disseminadas ou mesmo surgidas no século XX, que podem influenciar na vida cotidiana e nas questões econômicas, políticas e sociais.

Ajudou na contextualização história a exibição e o debate do filme Nós que aqui estamos por vós esperamos. Este, enfoca a história do século XX de uma forma muito própria, analisando as particularidades dos indivíduos e a presença dos grandes feitos históricos na relação com a sociedade. Contudo, retomou séculos anteriores, como o século XVIII com a Revolução Francesa e Industrial no século XVIII, que já introduzia na Europa profundas mudanças quanto à significação de mundo e compreensão da realidade. O contraponto foi feito com o pensamento de Walter Benjamin, para quem a reprodução tira o caráter sacral da arte, desprovendo-a de aura. Talvez, neste ponto se dê a relação entre as aulas e o livro de Puntel (1994), quando menciona a resistência da Igreja à abertura para essas tecnologias. Lembrando do que ela própria citou em aula: “A Igreja achava que o cinema era do ‘diabo’, quando ela se deu conta, realmente já era”.

Já a professora Rita de Cássia[6] tratou das migrações digitais, contexto para as novas tecnologias. A partir desse conceito em comunicação, não se pode mais dizer cultura de massa ao se referir à cultura contemporânea, pois o usuário dos meios é agora receptor, mas em interação. A convergência também aparece como fator importante. A fusão de computador e telefone deu a internet. Muito mais depois, a internet fundiu rádio, TV, telefone, jornal e cinema. Também essa dimensão da reflexão sobre comunicação é mais recente que a discussão apresentada na obra de referência deste trabalho. No entanto, a preocupação com a abertura da Igreja aos novos meios e com a preparação para seu uso e recepção, contemplada na obra, convergem também para essa nova discussão, abrindo espaço para a presença da Igreja nessas migrações.

O professor Rovilson Britto[7] trabalhou o tema Globalização, comunicação e identidades culturais, a partir da ideia de totalidade geo-histórica que desenvolveu primeiramente o transporte e atingiu também a comunicação. O capitalismo usa dos meios para despertar a dimensão de participação e de consumo. Globalizando o capital financeiro, também a cultura se globalizou. Clara expressão está na América Latina, citada por Puntel (1994). Os países subdesenvolvidos latino-americanos têm padrões de consumo e de cultura muito semelhantes aos países nórdicos, mesmo que a realidade socioeconômica seja muito diferente. A busca de uma Igreja popular, que faça uso de meios alternativos de produção econômica e cultural, aparece como um modelo reativo a essa globalização, em vista de uma valorização da identidade cultural destes países.

Rose Melo Rocha[8] tratou das mudanças históricas que as novas tecnologias provocaram nas relações sociais, políticas e econômicas. Um pouco do que há anos foi a experiência do MEB, porém em dimensões mais contemporâneas. Uma observação que norteia a pesquisa da professora é o mito de que a juventude de hoje está alienada à tecnologia e não luta por melhores condições de vida. A demonstração de que nas periferias há uma nova forma de reivindicação, que usa da arte, do teatro, do rádio e principalmente da internet, através dos blogs, é a prova encontrada por Rose de que a cultura tecnológica deu nova direção à luta das classes, sem, contudo, excluí-la. Por isso diz que a sociedade tecnológica é de base imaterial, sendo suas negociações principais se dão em base de uma economia simbólica.

Também no laboratório de internet, com o professor Ricardo Lulai, a presença da história da comunicação se deu de forma clara. Um estudo dos primórdios da internet ajudou a compreender esse processo de globalização da cultura e da economia, da transposição de fronteiras e dessa justificada distância mantida pela Igreja a principio. O professor lembrou os interesses primeiros da internet, como comunicação de guerra e depois como suporte de arquivos da comunidade científica. Sua popularização se deu junto ao processo de construção da sociedade contemporânea, sendo democratizada bem mais recentemente.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A história é o lugar em que o homem encontra-se na sua condição essencial de sujeito transformador. Se no momento histórico ele é capaz de desenvolver planos de atividades, é no fluxo histórico que essas atividades humanas se consagram e eternizam, em face de uma contínua ação transformadora, para a qual se forma a consciência crítica sociocultural.

Na história geral da civilização – na qual se podem abordar elementos não apenas do dado histórico cronológico, mas também, e principalmente, as influências que as áreas científicas, sociológicas, filosóficas, religiosas e culturais tiveram sobre cada um desses momentos – percebe-se que a ação humana é determinada em muito pelas demandas comunitárias. Clareando a ideia com o caso específico da comunicação, pode-se lembrar o passo dado com a invenção dos tipos móveis, com as experiências com o telégrafo, depois o rádio, o cinematógrafo, a TV e a internet. Não são construções que surgiram de vontades alienadas das necessidades coletivas, mas sim tentativas de facilitar a vida humana, trazendo para o plano prático e democrático aquilo que apenas uma classe poderia deter, que hoje se diz informação e cultura.

A realização deste trabalho permitiu analisar esta questão histórica sob o ângulo eclesial, partindo de uma visão da Igreja, como um todo, e alcançando as minúcias da Igreja latino-americana e mesmo das CEB’s, ainda muito presentes nos recantos brasileiros. Primeiro parece importante considerar que, como lembrado nas aulas, a Igreja sempre manteve certa distância com relação às inovações e descobertas. Seu olhar desconfiado, se manifestava por um lado a tentativa de manter seu poder intacto e conservar valores próprios da fé e da religiosidade, simbolizava por outro uma espécie de pedra de tropeço, impedindo seu próprio desenvolvimento evangélico, missionário e profético.

Contudo, como bem relatou Puntel (1994) em seu livro, aos poucos esse processo foi se abrindo também na história eclesial. As cartas encíclicas de diversos papas sobre o assunto foram aos poucos trazendo à tona a discussão a esse respeito, culminando majestosamente em Inter Mirifica, aprovada durante o Concílio Ecumênico do Vaticano II, sem, contudo, deixar de continuar abrindo-se a ideia de evangelizar nos novos areópagos, como mais tarde enfatizou o papa João Paulo II na encíclica Redemptoris Missio. Assim também, a questão latino-americana tratada pela autora introduz bem a realidade sociocultural desta parte do continente. Apresenta uma Igreja consciente da realidade de seu povo e que busca meios para não apenas dialogar com ele, mas principalmente libertá-lo das amarras imperialistas a que se sujeita, trazendo-o a consciência de si e à atitude transformadora que a mística evangélica requer dele.

Essa visão do âmbito eclesial, entre outras coisas, afirma que o tão falado processo comunicacional, que não sendo restrito a nenhum campo específico, consegue dialogar com todos os segmentos da vida humana. Caberiam, em outros estudos, análises semelhantes do desenvolvimento desse processo no campo científico ou acadêmico, por exemplo. De modo geral, a afirmação de Odebrecht lembrada no primeiro módulo – a partir da qual se considera a comunicação como o processo de influenciar e ser influenciado na busca do que é certo – confirma a ideia de que a comunicação perpassa todo o viver e agir humano, que na relação social se constrói a si e ao meio em que vive.

Parece importante relembrar também nessa consideração acerca do processo comunicação no seio da Igreja o que se disse na consideração do módulo de políticas da comunicação. “A preocupação da Igreja diante das mídias, e muito mais, diante do processo que envolve toda a cultura de mídia, é latente”. Em vista disso, a preocupação com a Pastoral da Comunicação que o SEPAC apresenta, se justifica. É oportuno amadurecer a visão contemporânea das mídias e das identidades dos povos e indivíduos, para uma efetiva ação pastoral que dialogue com aquilo que a técnica e a ciência podem oferecer.

Contudo, a questão que permanece é: A abertura da Igreja em vista de uma comunicação democrática deve vir de cima ou, através de um processo contínuo, ir se desenrolando nas comunidades? A consciência de mundo que buscamos formar com nossa ação pastoral tem levado as pessoas que nos são próximas a compreender o seu papel na transformação de uma sociedade, em busca de uma libertação das diversas formas de martírio? Podemos contrapor isso com um anúncio eficiente da Palavra de Deus?

Não seremos bons comunicadores enquanto não comunicarmos algo de edificante, mas com capacidade de realmente edificar. Conhecer as teorias e os pensamentos, assim como aqueles que representam cada corrente, além do momento histórico no qual se desenvolvem, é importante. Saber a forma como as coisas de organizam, que ética seguem, que política e filosofia as delineiam é essencial. Mas parece que imprescindível é ter consciência das atitudes concretas que se realiza, saber das influências que se tem e que se faz e de como isso pode ajudar à luz de uma ótica cristã fazer um mundo muito melhor.

REFERÊNCIAS

PUNTEL, Joana T. A Igreja e a democratização da comunicação. São Paulo: Paulinas, 1994. (Comunicação estudos)

INTER MIRIFICA, Decreto sobre os meios de comunicação social. In. DARIVA, Noemi (Org.). Comunicação social na Igreja: Documentos fundamentais. São Paulo: Paulinas, 2003.


[1] Dra. Sílvia H. S. Borelli, professora da PUC-SP e do SEPAC. Comunicação, cultura e história: Oralidade, escritura e imagética. (07 jul. 2010).

[2] Dra. Joana Puntel, professora e coordenadora do curso Cultura e meios de comunicação: uma abordagem teórico-prática no SEPAC. Jornalismo: A dinâmica das letras e das palavras (06 jul. 2010); Igreja e comunicação: História e desafios (09 jul. 2010).

[3] Irmã Helena Corazza, professora e diretora do SEPAC. O rádio e sua relação com a sociedade (08 jul. 2010).

[4] Dr. Francisco Serralvo, professor da PUC e do SEPAC. Marketing e propaganda na história da comunicação (08 jul. 2010)

[5] Dr. Edmilson Felipe da Silva, professor da PUC e do SEPAC. Imagens: A trajetória do audiovisual (Cinema e vídeo) (12 jul. 2010) e Imagens: O audiovisual e o campo televisivo (13 jul. 2010). Ainda moderou o filme Nós que aqui estamos por vós esperamos, no dia 10 de julho de 2010.

[6] Substituiu professora Sílvia Borelli. Migrações digitais: convergências, interfaces, interatividade. (14 jul. 2010).

[7][7] Substituiu o professor Mauro Wilton de Sousa. (15 jul. 2010)

[8] Professora e doutora Rose L. de Melo Rocha, professora na PUC-SP e no SEPAC. Tecnologias: rupturas nas trajetórias midiáticas (29 jan. 2010).

sábado, 19 de junho de 2010

Pastoral da comunicação: Diálogo entre fé e cultura

O presente trabalho refere-se ao módulo Políticas da Comunicação, do curso de especialização Cultura e meios de comunicação: Uma abordagem teórico-prática, realizado no SEPAC no mês de janeiro de 2010. Tem por objetivo manifestar, numa síntese, parte do processo de aprendizagem e de busca de aprofundamento naquilo que se estudou no período.
Para tanto, conforme orientação, toma-se como base à primeira parte desse trabalho o livro Pastoral da comunicação: Diálogo entre fé e cultura, de Joana T. Puntel e Helena Corazza, do qual se apresentará uma síntese. A segunda parte procura estabelecer uma relação direta e indireta entre aquilo que o livro apresenta com o conteúdo das diversas aulas ministradas no decorrer do curso, inclusive no que se refere ao laboratório.
Quanto à síntese do livro, dar-se-á a partir da estrutura elaborada pelas próprias autoras, dividida em quatro partes. De início, se abordará elementos presentes no diálogo entre fé e cultura, dentro da pastoral da comunicação, a partir da motivação dos 50 anos da Pascom e de documentos usados pelas autoras. A seguir, será mencionada a progressiva insistência da Igreja em vista de uma formação para a comunicação ao longo de sua trajetória histórica. Depois, pretende-se colocar diversos pontos para a organização da pastoral da comunicação, listando partes de um planejamento. Por último, falar um pouco da espiritualidade da comunicação, a partir da participação humana no projeto criador de Deus.
Já para o segundo momento do trabalho, objetiva-se colocar pontos da exposição dos professores diante do que é trabalhado no livro no intuito de perceber, através de um diálogo de ideias, as relações que a Pascom estabelece com toda a reflexão acadêmica sobre políticas da comunicação.
O que será colocado a título de considerações finais é produto de reflexões acerca do assunto e impressões daquilo que se apresentou. Nelas serão pontuadas observações mais pessoais sobre a forma como a Igreja se insere no campo da cultura de mídia e como os agentes da Pascom podem colaborar com uma pastoral renovadora da Igreja frente à sociedade.
Assim, o trabalho que segue é fruto de observações, anotações, leitura, reflexão, questionamentos e, por último, de aprendizado real, sendo também ele material para tal conquista. Apresenta-se, então, um esboço organizado daquilo que marcou o segundo módulo, seja na sala de aulas, seja em sua extensão nos estudos posteriores.
Capítulo I
PASTORAL DA COMUNICAÇÃO: DIÁLOGO ENTRE FÉ E CULTURA

De modo geral, o livro Pastoral da Comunicação: Diálogo entre fé e cultura apresenta a crescente preocupação da Igreja com a questão da comunicação dentro de sua perspectiva pastoral, a partir de seus diversos documentos e iniciativas.
Usando de uma linguagem simples, as autoras traçam um caminho para a compreensão, planejamento, implantação e continuidade da Pascom. A longa e profunda experiência que trazem, somadas ao dinamismo e entusiasmo que lhe são peculiares, faz com que a obra de Puntel e Corazza manifeste, como expressão de amor, o intenso zelo que têm para com o bom funcionamento da Pastoral da Comunicação na Igreja, desde as dioceses até as comunidades de base.
Na introdução à obra, as autoras relembram a afirmação de João Paulo II quanto à necessidade de se evangelizar a partir dos novos areópagos, que têm sido descuidados. Daí a perspectiva do avanço do anúncio pelas novas mídias e nelas.
No conjunto em que a obra se apresenta, a Pascom pode ser entendida num contexto de Igreja e sociedade, fazendo necessária sua presença para um melhor entrosamento entre as partes e uma pastoral de conjunto, bem organizada e efetiva.

1.1 – Pastoral da Comunicação: diálogo entre fé e cultura

Editado em 2007, o livro comemora os 50 anos da Pascom, surgida com a carta encíclica Miranda Prorsus, escrita pelo papa Pio XII em 1957, momento em que a televisão e o rádio começam a popularizarem-se e nasce a preocupação da Igreja com a educação de seus receptores. Para esses, seriam criados organismos nacionais que não só preservassem e defendessem, mas também dirigissem, coordenassem e prestassem assistência às obras educativas dentro do campo das técnicas difusoras.
Segundo as autoras é importante fazer uma passagem conceitual quanto à compreensão de comunicação por vezes presente, inclusive nos documentos da Igreja. Isso através de uma nova visão que compreenda a “comunicação como um processo que envolva, por sua vez, muitos elementos, aspectos, interatividade, e que, portanto, não pode ser considerada de modo isolado” (PUNTEL, CORAZZA, 2007, p. 21). Ou seja, é necessária a mudança da mentalidade estática de que a comunicação se resume apenas no uso da técnica, mas, pelo contrário, seu fenômeno e implicações devem ser considerados, numa análise de conjunto da sociedade, aberta às novas tendências culturais e tecnológicas, sem, no entanto, perder a dimensão do pastoreio, tão essencial à Igreja.
Trata-se, segundo as autoras, de promover o diálogo entre fé e cultura, dando seguimento à afirmação de Paulo VI: “a ruptura entre o evangelho e a cultura é, sem dúvida, o drama de nossa época ”. A proposta é, seguindo a pedagogia de Jesus, dar passos graduais no estabelecimento da Pascom. “Daí a importância e o convite para a Igreja reconhecer, refletir e iluminar esse revolucionário lugar teológico, que sempre mais provoca a mudança de paradigmas, linguagens e métodos pastorais na evangelização atual” (PUNTEL, CORAZZA, 2007, p. 29), que é a cultura midiática, com quem se vai dialogar.
Para estabelecer esse diálogo, a Pascom necessita conhecer com profundidade elementos fundamentais da cultura atual, principalmente a crescente discussão quanto à crise da modernidade em face da pós-modernidade, e, consequentemente em toda a sua complexidade, à crise de identidade dos povos, estendida às comunidades.
A influência que a cultura midiática exerce sobre os indivíduos também aparece como fator de instabilidade para a Pascom, uma vez que volatiliza valores e relativiza padrões. Contudo, a comunicação pode ser considerada como elemento articulador da sociedade pela capacidade de fazer circular ideias, mesmo suscetível às constantes mudanças de cunho tecnológico, que, comparando a invenção da imprensa às autoestradas telemáticas e à realidade virtual, muito a transformou.
Assim, a comunicação na pós-modernidade inaugura um complexo modo de vida, integrando todo o mundo numa vasta rede digital. A Pascom precisa não apenas preparar-se para o uso profissional da técnica, mas de tomar consciência das mudanças exercidas pelas novas tecnologias sobre as pessoas e a sociedade, nas diversas relações. Precisa ser, portanto, uma pastoral midiática. São necessárias competência e prudência, para, no uso dos meios tecnológicos, promover uma justa reflexão sobre seu papel, estabelecendo eixos essenciais que deem coesão de princípios, pautados numa atividade ética e que ajudem as pessoas a encontrarem sentido à fé que assumiram dentro de sua própria cultura.



1.2 – Formação para a comunicação: A progressiva insistência da Igreja

O segundo capítulo da obra percorre o caminho da Igreja quanto à comunicação, relacionando as diversas concepções empreendidas ao longo da história. Coloca também a preocupação com a boa formação para seu exercício, principalmente nos tempos atuais de cultura midiática.
Embora, como já citado, a Pascom tenha surgido em 1957, com a carta encíclica Miranda Prorsus, já em 1936, com a encíclica Vigilanti Cura , a igreja manifestava preocupação com o receptor. Com o decreto Inter Mirifica, de 1963, a Igreja assume posições mais claras quanto à comunicação, reforçando a necessidade de se cuidar dos receptores, mas também de preparar-se para atuar no mundo da comunicação. Já a Communio et Progresso , de 1971, reforça a boa formação da consciência quanto à qualidade da informação recebida e, principalmente, quanto à preparação eficiente para usar das possibilidades de expressão nos meios, que devem agora ser problematizados nas disciplinas teológicas, especialmente na teologia moral, pastoral e catequética. Communio et Progresso manifesta ainda preocupação com a formação de sacerdotes e religiosos para a incidência dos meios na sociedade, em vista de um apostolado eficaz.
Apesar dos avanços atingidos até então, continua muito presente a preocupação da Igreja apenas com os meios. Só com a encíclica Redemptoris Missio , de 1990, é que os meios passam a ser vistos como uma nova cultura, a cultura midiática, e que dela não se pode descuidar, porque é o novo areópago da missão. Diz: “Não é suficiente, portanto, usá-los para difundir a mensagem cristã e o magistério da Igreja, mas é preciso integrar a mensagem nessa nova cultura, criada pelas modernas comunicações” (RM apud PUNTEL; CORAZZA, 2007, p. 63).
Em 1992, o documento Aetatis Novae convida para uma educação e aprimoramento dos engajados na Pascom para uma comunicação consciente. Preocupa-se ainda com a formação espiritual e com a assistência pastoral para aqueles que trabalham nos diversos canais de mídia não católicos. A partir de então começa a haver um novo enfoque na discussão da Igreja sobre comunicação, considerando o pleno desenvolvimento da era digital. Surge, no ano 2000, o documento Ética nas comunicações sociais e em 2002 os documentos Igreja e Internet e Ética na Internet .
As oportunidades e os desafios do ciberespaço estão diante da Igreja e da Pascom, como uma das questões a serem afrontadas nesta nova era da comunicação. Muitos sites da Web já são de conteúdo cristão e muitos, não cristãos, abortam temas religiosos. Informações multiplicam-se velozmente, às vezes sem controle. A afirmação é de que não basta aos cristãos serem informados, mas também informadores com consciência cristã.
É a preocupação dos dois últimos documentos citados. Eles querem fazer da internet um ponto de força para a evangelização, usando de sua abrangência para envolver sempre mais pessoas e valores relacionados na rede.
A insistência da Igreja em razão da formação justifica-se nas palavras de João Paulo II, ao afirmar que as novas linguagens introduzidas pelos meios de comunicação influenciam nas relações humanas, necessitando, portanto, de uma formação adequada para evitar que os meios, que deveriam estar a serviço das pessoas, as instrumentalize.

1.3 – Organização da Pastoral da Comunicação

A partir da recomendação de Aetatis Novae para que cada conferência episcopal e cada diocese elaborem um plano pastoral completo de comunicação, ou seja, que se dê um “novo enfoque para os planos pastorais para que a ótica da comunicação perpasse toda a ação evangelizadora da Igreja” (PUNTEL, CORAZZA, 2007, p. 81-82), é que a Igreja abraçou de fato a Pascom.
A pastoral da comunicação assume um lugar integrador na Igreja, englobando todos os planos pastorais, a fim de que os membros da comunidade se assumam na cultura midiática, envolvendo toda a vida e ação da Igreja. Para tanto, é necessária na programação do processo de gestão contemplar a formação das lideranças, estudar documentos oficiais, tornar conhecido o significado da nova cultura da comunicação, assim como seu impacto e influência na sociedade e na percepção da fé. Deve fazer convergir diversas linhas da comunicação para a pastoral, estimular a colaboração entre as pastorais, ajudar aos catequistas revisar e atualizar métodos de ensino, além de formar comunicadores inseridos nesse plano pastoral. Pretende ainda formar continuamente ministros ordenados, assim como famílias, jovens e crianças, promover o acesso a publicações católicas e também marcar presença nos meios de comunicação locais.
Nas paróquias e dioceses o planejamento deve envolver todas as coordenações e pastorais, sendo desenvolvido por uma equipe diocesana de comunicação, com representação de cada área pastoral, em sintonia com toda a coordenação pastoral, assim também deve acontecer nas paróquias. As equipes diocesanas e paroquiais devem trabalhar em consonância, em cumprimento de um plano de articulação.
O planejamento integrado deve envolver diocese e paróquias, paróquias e comunidades, todas as pastorais e as pessoas, através do pensamento comum, estabelecendo vínculos pessoais e pastorais.
A Pascom é uma pastoral específica na Igreja e segue um organograma, partindo das Organizações Católicas (UCIP e SIGNIS) e estendendo-se ao Pontifício Conselho para as Comunicações Sociais, em Roma, para o DECOS (Departamento de Comunicação Social), na América Latina, para a CNBB, para os regionais, dioceses e paróquias.
Para o funcionamento da Pascom é necessário que as pessoas envolvidas tenham alguma formação na área, compreendam o campo da cultura da comunicação e amem a missão, buscando conhecer melhor a área Igreja e comunicação. Assumirem-se gestores do processo sem estrelismo, através do espírito de Igreja e comunidade. A equipe deve formar a consciência da comunidade sobre ser comunicação e ajudar a dinamizar a vida de comunicação da comunidade.
A Pascom abrange todas as pessoas e pastorais. Externamente, divulga as ações para a sociedade através dos diversos meios e relações pessoais e culturais. Internamente, interage as pastorais, promovendo o diálogo e a informação entre elas e ajuda na acolhida, catequese, liturgia, sempre num processo relacional em vista do desenvolvimento humano.
Em Aetatis Novae a Igreja estabelece algumas linhas orientadoras para o planejamento da Pascom de modo que integre estrutural e pastoralmente todos os setores da Igreja. Para esse planejamento deve-se partir de uma análise da realidade, depois identificar as prioridades, definir os objetivos e metas e estabelecer temáticas. Deve ainda deixar alternativas pensadas, para, após a avaliação, se preciso, usá-las.

1.4 – Espiritualidade da Comunicação

Sendo uma Pastoral, a Pascom deve estar alicerçada primeiramente na espiritualidade, “pois ela é seiva que dá vida aos ramos” (PUNTEL, CORAZZA, 2007, p. 111). É a dinâmica e vivacidade da Palavra de Deus que torna efetiva a Pascom. Durante toda a história da salvação, Deus se comunicou com o seu povo, a Pastoral da Comunicação quer colaborar nesse processo, ajudando Deus a continuar comunicando salvação ao seu povo. É relação, é entrosamento, envolvimento geral.
Pela comunicação o ser humano une-se ao ato criador de Deus, tornando-se sujeito do processo. O homem continua a criação quando descobre novas tecnologias no campo da comunicação e colabora com o progresso da humanidade. Quando se reconhece partícipe da criação, o homem assume sua importância no desenvolvimento histórico, social e religioso da obra de Deus. Quando, ao contrário, se fecha em seu mundo isolado, nega aos seus a oportunidade de crescerem juntos e deixa de sentir o amor que motiva a vida humana em Deus.
A figura de Jesus, como o comunicador do Pai, manifesta a perfeita relação entre Deus e o homem, a ponto de Ele mesmo se fazer humano, pra melhor se revelar. A afirmação de Jesus como Caminho, Verdade e Vida “é uma proposta de espiritualidade que envolve a pessoa no seu todo” (PUNTEL, CORAZZA, 2007, p. 116). É preciso estar com ele sempre.
Como proposta para a formação de uma sólida espiritualidade do agente da Pascom, as autoras sugerem ainda na obra uma série de belas orações para rezar a comunicação. Entre elas estão presentes textos mais clássicos, como Jesus, Perfeito comunicador e Oração pelos comunicadores, de Irmã Joana Puntel, que reafirmam a vinda de Jesus como Caminho, verdade e Vida e pede por todos os engajados na comunicação; a Oração do internauta, de Adriana Zuchetto, na qual se pede que todos os internautas sintam a felicidade de encontrar Jesus, andarilho nas autopistas do ciberespaço; os belos O tempo e o momento e Hipóteses e teorias, de Edna Pires; além de outros, inclusive de bem-aventurado Tiago Alberione.

Capítulo II
PASTORAL DA COMUNICAÇÃO: RELAÇÃO LIVRO – SALA DE AULA

As políticas da comunicação, assunto abordado nesse módulo, permeiam toda a estrutura da Pascom. Sendo ela a posição participante da Igreja no processo de comunicação na cultura midiática, está também inserida em toda a discussão ética, política, sociológica e tecnológica, bastante refletida no último módulo.
Falando da “Fundamentação ética nas políticas de comunicação”, o professor Francisco Serralvo lembrou a origem dos termos ética e moral, buscando uma reflexão acerca dos fundamentos que delimitam esse campo, dentro da perspectiva profissional de comunicação, no contexto da economia de mercado. A questão ética tem se apresentado como um desafio, uma vez que, segundo o professor, sua função é estabelecer uma relação mais justa dentro das estruturas sociais.
Assim coloca-se a preocupação da Igreja, que Puntel e Corazza (2007) lembram ao mencionarem os documentos Ética na publicidade (1997), Ética nas comunicações sociais (2000) e Ética na internet (2002). Na visão das autoras, esses os princípios éticos devem pautar-se na solidariedade, subsidiaridade, justiça, equidade e verdade, não se prendendo apenas ao conteúdo, mas também ao sistema que o envolve.
Professor Mauro Wilton abordou com seriedade a constatação, da qual Puntel e Corazza (2007) também falam, de que houve um rompimento de época, fruto da crise da modernidade, que resultou na pós-modernidade. Nela, palco da globalização, o global e o local, ou na expressão própria de Mauro, “glocal”, interagem-se, naquilo que professor Mauro chamou de blocos e regiões, sendo novas distribuições do poder midiático, uma vez que a comunicação é essencialmente relacional e, como ele mesmo diz, citando Foucault, toda relação é uma relação de poder, que é mediado pela Igreja, pelo Estado e pela Economia.
Mauro Wilton, noutra aula, falou ainda das políticas públicas, dos confrontos entre o bem comum, os interesses privados e a opinião pública. A luta pela real implantação da Pascom se dá no sentido de garantir que todo o processo esteja em favor de todos, mesmo que agindo a partir de “coletivo virtualizado”, como diz Mauro, entendendo que o poder não está nos meios, mas na vida que eles produzem.
A professora Sílvia Borelli abordou outro tema muito presente também na obra de Puntel e Corazza (2007) que são os desafios e políticas de comunicação na perspectiva das novas identidades e do multiculturalismo, principalmente quanto às novas identidades. Sobre isso, citando Stuart Hall, as autoras lembram a fragmentação do indivíduo, que é parte do processo de mudança. Outra relação muito clara entre aula e livro é a afirmação de professora Sílvia de que as transformações acontecem muito rapidamente e que o maior processo de comunicação está no campo da cultura e das comunicações. O que na expressão de Puntel e Corazza (2007) é buscar conhecer e admitir a mudança tecnológica comunicativa, que acontece hoje como fenômeno global, conjugada com tantos aspectos da vida social.
Outro conteúdo ministrado por Sílvia Borelli foi com relação às novas tecnologias e novas mídias, sob o eixo da inclusão e da exclusão. Segundo a professora, o novo vem caracterizado pelo diálogo com suas bases, se requalificando, cabendo a qualquer momento do que é novo, pensar em quais aspectos inclui e exclui. Como pastoral da integração, a Pascom refaz constantemente essa avaliação frente ao novo, mantendo-se aberta às novas tecnologias em face de atuar com consciência dentro das novas mídias, de modo que todos sejam incluídos no processo.
A professora Rosemary Segurado tratou das políticas de concessão das diversas mídias, percorrendo um percurso histórico dessas concessões no Brasil. Usando dos recursos de diversas mídias e em diálogo com a cultura midiática, a Pascom precisa também, segundo as autoras, organizar-se de tal modo que consiga enquadrar-se nos requisitos legais em vista de um testemunho ético e coerente na evangelização.
O eixo central do livro foi trabalhado em sala de aula com mais precisão por uma de suas autoras, a irmã Joana Puntel , com o tema Igreja: sua identificação e as políticas de comunicação. A professora, para quem as políticas de comunicação são uma decorrência da identidade cristã, partiu de constatações sociológicas no campo da comunicação, entrelaçando-as às constatações da linha eclesial, traçando também uma trajetória histórica, destacando o surgimento da Campanha da Fraternidade em 1664, como importante iniciativa de comunicação e estratégia comunicacional da Igreja. Abordou também temas como a identidade da missão e os desafios de fazê-la hoje.
Ressaltou elementos presentes no livro, como o conhecimento do interlocutor através do estudo da mediação, dentro do diálogo fé e cultura. Sobre a Pascom, enfatizou a necessidade de se somar forças no interior da Igreja em vista de ajudar na sua atualização. Lembrou ainda a importância da Pascom como pastoral da integração, que encampa as demais pastorais.
Cecília Peruzzo , falando de mídias alternativas e comunitárias, lembrou que não são somente fuga do convencional e não se referem apenas aos meios, mas a processos mais amplos. No geral, estão ligadas às expressões populares de cunho crítico, que a própria Igreja muito usa, principalmente nas comunidades de base, sempre em vista da justiça social. Quando Puntel e Corazza (2007) falam da comunicação na Igreja sob o ângulo prático da relação entre comunidade e sociedade, elas listam meios como boletins, jornais e programas de rádio e TV. Salvos alguns casos mais raros, a grande maioria desses órgãos usados na Pascom têm esse caráter alternativo e comunitário, uma vez que são expressões de pequeno alcance e revelam a organização popular das comunidades, ou representam alguma alternativa diante dos grandes veículos oficiais de comunicação.
A nova fronteira do evangelho, que as autoras consideram o ciberespaço, de um modo mais amplo, considerando todas as mídias digitais, foi apresentada com propriedade pela professora Marlyvan Moraes . Segundo ela, são mídias pós-massivas, baseadas na usabilidade, nas quais a produção é descentralizada e em tempo real.
Puntel e Corazza (2007) ao falarem de uma perspectiva de futuro da comunicação, lembram as autoestradas eletrônicas, que colocam todo o planeta numa imensa rede comunicativa, que permite a qualquer um em qualquer lugar entrar em contato com todo o mundo. Falando de sociedade de redes, a professora Rose Melo Rocha enfatizou que as redes determinam o desenvolvimento da sociedade, tanto fisicamente, por meio das redes materiais, como virtualmente, pelas redes simbólicas. A afirmação de Puntel e Corazza (2007, p. 47) de que “não se poderá mais viver senão em rede” associa-se a colocação de Rose quanto à apropriação das redes digitais de caracteres próprios das redes primitivas. Ou seja, o ser que é necessariamente social adapta-se e permite-se criar e envolver-se em redes que se atualizam constantemente.
Também no laboratório os dois eixos – política e pastoral da comunicação – foram bem notados. Com auxílio da professora Margarete Pedro e do professor José Reis diversos dos pontos discutidos na parte expositiva do curso foram retomados e rediscutidos, na perspectiva da ação prática.
Todo o processo de produção de um jornal está envolvido por uma política, diga-se da comunicação, que estabelece condições e limites. Daí a tomada de posições éticas diante de diversos assuntos; o cuidado com a pessoa humana envolvida, a preservação de sua dignidade; a imparcialidade e a capacidade de escuta dos diversos lados tratados; até mesmo a coerência com as fontes e com o leitor são condições dessa política. A escolha de tipos, cores e imagens também são elementos de uma política para a sensibilização do consumidor.
Pastoralmente, o jornal se apresenta como veículo alternativo e comunitário, colocado em vista de uma evangelização comprometida com a verdade e com o crescimento do reino de Deus. Embora ainda muito vertical, a informação veiculada nesses jornais são “interativas” na medida em que as comunidades se envolvem na sua elaboração, representando, de fato, a vida e os interesses do público. Em face disso, o laboratório permitiu conhecer noções de elaboração de um bom material impresso para as dioceses e paróquias, a partir do domínio de recursos textuais e gráficos apresentados, e também devido ao zelo individualizado da professora em analisar as diversas produções trazidas pelos alunos e sugerir mudanças.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A constatação de que não estamos apenas numa época de mudanças, mas também numa mudança de época é ponto de partida para a compreensão preliminar de que estamos envolvidos por uma cultura essencialmente midiática, fruto de uma pós-modernidade subjetivada e consequência inevitável da crise na qual a modernidade se viu.
Nesse cenário de identidades diversas a Pascom, se coloca como uma porta aberta pela Igreja e para ela mesma, na tentativa de um diálogo entre o dado religioso e a cultura dominante na qual a própria Igreja se insere e com quem ela dialoga. A atuação pastoral da Igreja, envolvida de todos os lados pela comunicação, está em vista de assumir-se parte dessa cultura, permitindo aos indivíduos diversos tomarem conhecimento da Boa Nova anunciada.
Como visto, a preocupação da Igreja com a sua posição diante das mídias, e muito mais, diante do processo que envolve toda a cultura de mídia, é latente. São muitos anos de árduo esforço, a partir de diversos documentos e encíclicas, para que a Igreja, de modo geral, entrasse nesse diálogo, portando-se de acordo com os valores cristãos que sempre defendeu, objetivando, de algum modo, também catequizar a cultura.
As reflexões das irmãs Joana Puntel e Helena Corazza são respostas de uma Igreja atenta às necessidades do tempo. A ideia que sustentam de que uma Pastoral da Comunicação só pode se estruturar com firmeza sobre o solo da cultura atual se bem conhecido, justifica as diversas discussões e estudos oferecidos pelo SEPAC na perspectiva de amadurecer a visão contemporânea das mídias e das identidades pessoais.
As constantes transformações digitais, a imensidão do ciberespaço, à perspectiva das autoestradas virtuais e a virtualização das relações, no plano real, são desafios que a Igreja pode enfrentar usando dos benefícios da Pascom como organismo de integração das diversas pastorais e como elo entre Igreja e sociedade midiatizada, estando sempre mais apta a enfrentá-los, tanto mais dedicada em conhecê-los.
Contudo, o grande perigo é fazer da Pascom alavanca para estrelismos pessoais. É preciso que na humildade do Bom Pastor, se continue colaborando no projeto criador do Pai, assumindo, cada agente da Pastoral, a importante função na formação de um mundo consciente, comprometido com a verdade por princípios éticos, com atitudes de uma prática cristã e pastoral efetiva.

Cláudio Geraldo da Silva
Trabalho apresentado à PUC/SP - SEPAC.

REFERÊNCIA

PUNTEL, Joana T.; CORAZZA, Helena. Pastoral da comunicação: Diálogo entre fé e cultura. São Paulo: Paulinas, 2007. (Coleção Dinamizando a comunicação)

As teorias da comunicação

O presente trabalho refere-se ao módulo Teorias da Comunicação, do curso de especialização Cultura e meios de comunicação: Uma abordagem teórico-prática, realizado no SEPAC no mês de julho de 2009. Tem por objetivo manifestar, numa síntese, parte do processo de aprendizagem e de busca de aprofundamento naquilo que se estudou no período.
Para tanto, conforme orientação, toma-se como base à primeira parte desse trabalho o livro Teorias da comunicação: da fala a internet, do professor Roberto Elísio dos Santos, do qual se apresentará uma síntese. A segunda parte procura estabelecer uma relação direta entre aquilo que o livro apresenta com o conteúdo das diversas aulas ministradas no decorrer do curso, inclusive no que se refere ao laboratório.
Quanto à síntese do livro, dar-se-á a partir da estrutura elaborada pelo próprio autor. Abordando de início o fenômeno da comunicação, seu desenvolvimento desde a descoberta e organização dos sons como sinais, até o seu alto desenvolvimento na era tecnológica, através dos diversos recursos usados para propagá-la. Pretende-se, no entanto, não abordá-la apenas por assim o fazer, como mera narrativa, mas analisá-la em seu conjunto. A parte dois do livro relaciona e expõe diversos momentos de interpretação e estudo do fenômeno da comunicação, colocado a partir das diversas escolas a ela ligadas. O que também será aqui abordado e refletido.
Já para o segundo momento do trabalho, objetiva-se colocar pontos da exposição dos professores diante do que é trabalhado no livro, assim como levantar colocações de outros autores da área e, ora usá-los para afirmar, ora para questionar o autor, no intuito de perceber, através de um diálogo de ideias, as possibilidades diante da questão da comunicação, das diversas formas como ela é colocada.
O que aqui será colocado a critério de considerações finais, são, de fato, considerações. Trazem muito mais impressões que certezas. Porém, nelas serão pontuadas observações de cunho pessoal, da forma como o fenômeno, o estudo e a aplicação da comunicação parecem soar na sociedade hoje e como isso tem influenciado na formação da consciência pessoal, político e social das pessoas.
Assim, o trabalho que segue é fruto de observações, anotações, leitura, reflexão, questionamentos e, por último, de aprendizado real, sendo também ele material para tal conquista. Apresenta-se, então, um esboço organizado daquilo que marcou o primeiro módulo, seja na sala de aulas, seja em sua extensão nos estudos posteriores.
Capítulo I
AS TEORIAS DA COMUNICAÇÃO: DA FALA À INTERNET

Em seu conjunto, o livro apresenta o fenômeno da comunicação dentro de vários aspectos que o marca. O autor estabelece um percurso da história humana, sequenciando o homem que progride na ânsia de se comunicar melhor, organizando-se e tornando seu ato comunicativo mais eficiente.
Sua linguagem simples faz daquilo que é uma pesquisa científica um bom método de estudo e um impactante convite à reflexão acerca desse fenômeno, inclusive pode-se afirmar que o conteúdo em si, já traz boas pistas para uma reflexão, já que o autor mesmo a faz em diversos momentos.
Na introdução à obra, Santos (2003) ressalta a amplitude da comunicação, não a restringindo apenas à troca de informações. Com isso delineia todo o processo comunicacional, desde a criação de sinais e meios até a sua aceitação e incorporação cultural. Além da observação dos interesses a que esse processo serve e da percepção das ideologias nele inseridas, nota-se ainda o feito social que realiza, através das relações horizontais, no nível interpessoal e também das verticais, vindas dos meios de comunicação de massa, das infomídias e, em geral, dos meios frutos do avanço tecnológico.
Evidentemente sobre algo de tamanha intensidade não faltam reflexões e estudos. Muitos são os nomes e grupos de sociólogos, filósofos e pesquisadores de diversas áreas que se enveredaram por esse caminho e chegaram a constatações diversas acerca desse fenômeno, tendo cada um algo a apresentar que ajude a compreendê-lo.

1.1 – Os fenômenos da comunicação

Sendo o ato comunicacional “uma forma de recreação de uma dada realidade captada por aqueles que se comunicam a partir de seus próprios conceitos e preconceitos” (SANTOS, 2003), faz-se necessário à sua compreensão o conhecimento de seu processo evolutivo, de como e por que razão tal processo se desenvolveu nos diferentes grupos e meios.
Segundo o autor a Idade da Fala e da Linguagem iniciou-se a mais ou menos cinquenta e cinco mil anos, através do controle do aparelho fonador humano colocado na emissão de sons organizados. Depois as convenções de símbolos e sinais, como as pinturas rupestres, começaram a alimentar o que, por volta de cinco mil anos atrás, seria a Era da Escrita, iniciada pelos chineses, maias, sumérios e egípcios. Mais tarde os sumérios também organizariam o sistema fonético e foi só por volta de 700 a.C. que, na Europa Central, se iniciou a escrita alfabética.
O ato comunicacional já desde o seu desenvolvimento veio se colocando sob as formas verbal e não verbal e orientando-se a partir da finalidade, podendo ser subjetiva, interpessoal ou massiva, estando sempre presentes os interlocutores, a mensagem, os meios e o contexto.
A eficácia da troca de informações depende da reciprocidade de conhecimento dos sinais pelas partes envolvidas. A linguagem, na sua organização dos códigos e seu conjunto de signos comuns a um dado grupo, responde a isso. Tais signos são constituídos pelo objeto representado (referente), sua representação, ou seja, o significante, por meio da fala, escrita, gestos ou imagem (nesse caso diz-se ícone) e pelo significado que lhe é dado de modo aleatório. Relacionam-se ainda os símbolos, que representam ideias, noções abstratas. A compreensão final do signo ainda depende de seu sentido ser denotativo ou conotativo. No primeiro, compreende-se tal como ele é, já no segundo, novos significados podem ser associados.
O autor atribui ao filósofo suíço Saussure o surgimento da linguística moderna, para quem a língua é um conjunto de signos, utilizados e transformados pela fala. No entanto, foi o cientista inglês Pierce que desenvolveu a semiótica, ou ciência dos signos, com função de classificar e descrever os signos, não importando tanto seu significado, mas sim a interpretação que deles se podem fazer.
A linguagem exerce importante papel na comunicação humana. Transmitem, além da mensagem, muitas características do emissor, do receptor e dela própria. Apresenta-se carregada de ideologias e, muitas vezes, é usada na tentativa de convencimento, que os gregos já chamavam de retórica. Na análise disso, a linguística, a semiologia e a semiótica são importantes, principalmente no estudo do conteúdo das mensagens transmitidas.
Contudo, a linguagem não verbal, ou paralinguística, também se torna alvo de estudos na cinésica e na proxêmica, perante o seu papel no ato comunicacional. Referem-se tanto aos gestos, as posições e movimentos corporais como ao tom de voz. Esses recursos estão condicionados a fatores biofísicos e psicológicos (sexo ou idade), ambientais, sociais, educacionais, culturais e podem afirmar ou até repetir a informação, como podem também contradizê-la, exigindo, assim, domínio do emissor não apenas do modo como se expõe, mas também da forma como seus interlocutores a receberão.
A comunicação pictórica, ou seja, o uso de representações figuradas e relacionadas com o objeto representado, de longe se faz presente no desenvolvimento da comunicação. Desde as pinturas nas cavernas até os recursos da computação gráfica as sociedades usaram da imagem para transmitir mensagens e cultura. Estão presentes nas figuras ilustrativas, na televisão, nas telas, nas ruas e muitas vezes carregam símbolos e ideologias que, embora comuns, remetem a significados diversos. Da imagem, estudos já levantaram muitos componentes, como a presença do ponto, linha, tom, forma e cor, sua estaticidade e dinamicidade e as variações de imagem, que podem ser pura, imagem de imagens, imagem de não imagens e não imagem de imagens.
Vistas essas diversas formas presentes na comunicação incessante do homem, é notória também a presença dos meios massivos de produção e veiculação de comunicação de cultura, informação e lazer. Visam lucro e para isso precisam prender a atenção dos receptores, que buscam nesses meios as mais diversas informações.
Tais meios iniciaram-se no ocidente com a invenção da imprensa de Gutenberg no século XV, possibilitando a impressão de livros, como a bíblia em alemão de Lutero e dos jornais. No sec. XIX a invenção do telégrafo, telefone, fotografia, cinema, gramofone e do rádio marcaram também esse avanço dos meios. A televisão surgiu no século XX, conjugando elementos de vários outros meios, tornando-se então a síntese deles e é ainda hoje um dos meios mais comuns e importantes de comunicação de massa.
As transformações trazidas pela tecnologia foram fazendo a comunicação cada vez mais rápida e eficiente. As mídias digitais intensificaram as trocas de informações entre pessoas, empresas e países. “Hoje, as mensagens são veiculadas em maior quantidade, com mais rapidez e contemplam parcelas cada vez mais amplas de receptores” (Santos, 2003); esse processo rompe as fronteiras e mundializa a comunicação e consequentemente a cultura própria de algum povo. No entanto, a possibilidade destas mesmas mídias em dimensão local valoriza a cultura regional e a identidade específica desse grupo. Mesmo assim essas mídias são necessárias a sociedade, na medida em que esta carece de informações e as quer em quantidade e velocidade satisfatórias, independendo dos danos que possam causar.
Dessa industrialização da cultura originou uma série de pensamentos que zelavam pela tradição cultural e apontavam nos meios massivos defeitos e ameaças, principalmente pela ideologia dominante no sistema capitalista imposta através de sua verticalidade. Outros a viam como a democratização da cultura, sendo possibilidades de acesso a informações e bens culturais diversos. Surge aí a teoria da informação, objetivando conhecer e otimizar o custo do processo comunicacional.
1.2 – As escolas teóricas

No desenvolvimento das ciências sociais, vários cientistas sociais se voltaram para a questão da comunicação, observando-a a partir de seu impacto cultural e de seu uso na integração social. Tais estudos, surgidos na Europa, eram de ordem positivista ou marxista, procurando explicar tudo à luz da ciência ou pretendendo mudar a estrutura de classes, respectivamente.
No início do século XX, surge a teoria funcionalista a partir dos teóricos da Escola de Chicago. Pelo paradigma de Lasswell, alguns dos teóricos funcionalistas explicam o processo da comunicação que engloba emissor, mensagem, meio, receptor e o seu fim. Justificam ainda a influência exercida pelo meio sobre a sociedade, além da sua função na manutenção da ordem social. Porém, outros afirmam que tal paradigma justifica o uso autoritário dos meios. Propõem então o paradigma de Lazarsfeld, que estuda o processo a partir de seu contexto.
Opostos aos funcionalistas colocam-se os frankfurtianos, principalmente Horkheimer, Adorno, Benjamim e Marcuse. Os dois primeiros numa crítica à produção cultural padronizada e em série cunham o termo indústria cultural, designando a maneira de apropriação da cultura pelo capitalismo. Benjamim considerava que a aura, ou seja, a legitimidade da obra se perderia ao ser reproduzida. Marcuse afirmava que o ser humano tendia a unidimensionalidade, a partir da supressão do princípio do prazer. Mais tarde, Habermas formulou a teoria da competência comunicativa, em que o tecnicismo faz público aquilo que era privado.
Em oposição tanto aos funcionalistas como aos frankfurtianos estão os teóricos da Escola Sociológica Europeia, como Roland Barthes, Edgar Morin, Jean Baudrillard, Julia Kristeva, Christian Metz, Umberto Eco, entre outros. Eco pensava que a fenômeno da comunicação é legítimo, pertencente a um momento histórico e sua análise deve levar em conta a linguagem usada, a recepção e o contexto cultural. Para Morin, a cultura de massa tem caráter universal, devendo ser olhada a partir da totalidade e da autocrítica. Relacionam-se ainda Saussure e a semiologia, além de Levi-Strauss e o estruturalismo.
Marshall McLuhan dedicou-se ao estudo dos meios, tendo alguns pensamentos e conceitos próprios, alguns contestados por outros teóricos. Segundo ele, os meios são extensões dos sentidos humanos e têm sua eficiência tanto melhor, quanto maior forem os sentidos usados, sendo a fala a mais eficaz. O conceito Galáxia de Gutenberg refere-se ao fenômeno de que a partir da imprensa o homem fixou-se no uso da visão. Aldeia global, outro conceito de McLuhan, é o mundo. Nele, “a mesma experiência comunicativa é compartilhada por diferentes culturas” (Santos 2003), são milhões de pessoas compartilhando a mesma experiência.
Outros pontos de vista foram colocados pela chamada Nova Esquerda, principalmente pelo filósofo alemão Enzensberger. Para ele os meios podem agir na consciência da massa, mobilizando-a a algum fim, o que ele chama de indústria da consciência. Já o filósofo francês Althusser trata dos aparelhos ideológicos, principalmente o do estado, que reforçam a produção das ideologias veiculadas.
A partir dos anos 1970, em decorrência de fatores políticos, sociais e econômicos, a sociedade configura-se ao pós-moderno. As implicações culturais dessa mudança de padrões foram estudadas pelos teóricos da Escola Progressista-Evolucionista. Para eles a cultura se democratiza pela educação, o que vinha acontecendo devido à emergência da sociedade intelectualizada. A isso, Alvin Toffler chamou de terceira onda, que caracteriza, pela interação das partes, a desmassificação dos meios de comunicação de massa.
Nessa sociedade pós-moderna, principalmente nos países desenvolvidos, o tempo real e a semelhança à vida real são marcantes na comunicação. Esta se caracteriza pela utilização de recursos de alta tecnologia, assim como pela alta velocidade na transmissão das informações e ainda pelo consumismo e hedonismo. As ideologias estão intrínsecas, mas revelam um grande vazio de conhecimentos passados. No entanto, isso ainda é bastante informe nos países subdesenvolvidos, nos quais muitas vezes o fenômeno não é estudado.
No caso da América Latina, o estudo do fenômeno da comunicação apareceu a partir da década de 1950 numa perspectiva funcionalista. O Ciespal (Centro Internacional de Estudios Superiores de Periodismo para a América Latina) foi criado em 1959 e seus estudos visavam a melhoria das condições de vida do povo e depois a comunicação popular. Depois de 1970, alguns teóricos de esquerda (muitos membros do Ceren – Centro de Estudos da Realidade Nacional) começaram a observar as ideologias, a partir dos conceitos imperialismo cultural (imposição dos países ricos de produtos culturais) e hegemonia.
Na década de 1980, a tentativa de democratizar a informação e dialogizar o processo repercutiu na criação dos meios alternativos que veiculavam na “contramão” a cultura popular. Os Estudos Culturais ingleses foram retomados nas décadas de 1980 e 1990 por Martin-Barbero e Garcia Cancline. Para o primeiro, os meios homogeneízam os comportamentos e afastam as pessoas das ruas, isolando-as em casa e criam nos meios de comunicação sua identidade. Já para o segundo, os meios criam culturas híbridas (populares, massivas e de consumo), como é o hip-hop.

Capítulo II
TEORIAS DA COMUNICAÇÃO: RELAÇÃO LIVRO – SALA DE AULA

Em artigo publicado na Folha de São Paulo, Emílio Odebrecht, citado pelo professor Mauro Wilton , considera a definição mais agradável de comunicação aquela que a concebe como processo de influenciar e ser influenciado na busca do que é certo. Afirmando Santos (2003) quando diz que se peca ao concebê-la apenas como processo de transmissão de informações, uma vez que abrange toda uma sistematização de relações. Isso se evidencia nas palavras do próprio professor: “Comunicação é fruto de uma alteridade entre o ‘eu’ e o ‘outro’”.
Os limites e possibilidades abordados por Mauro Wilton expuseram a linearidade temporal em que a comunicação se dá, principalmente nas mudanças de época e nas formas características de cada momento histórico. Contextualizando o processo comunicativo desde a presença do ato comunicacional no ser humano como necessidade vital, seu desenvolvimento anatômico e biológico, até o momento em que esse processo começa ser objeto de estudos e, não só isso, a forma como esses estudos se inserem no campo acadêmico e social, desenvolvendo as diversas teorias, que partem do impacto que a comunicação causa na sociedade.
A teoria funcionalista, também abordada pelo professor Mauro Wilton, parte da noção de função. Mattelart e Mattelart (2000) desenvolvem esse assunto a partir da pergunta: “Quem diz o quê por que canal e com que efeito?”. Em Sousa (2003), a função relaciona-se à atuação de uma determinada instituição na sociedade e sua importância na manutenção dela. A “agulha hipodérmica” relaciona a emissão à recepção no uso dos meios para o fim, que é a resposta ao estímulo provocado com meios persuasivos, mesmo que para isso o indivíduo se dilua no grupo que media sua identidade. A mídia é, no final, a gratificação à sociedade por aquilo que ela espera. Sendo, portanto, o modo de compreender a comunicação no seu processo de consumo.
A professora Sílvia Borelli , em aula sobre os frankfurtianos, estabeleceu um paralelo entre funcionalismo e teoria crítica semelhante ao feito por Santos (2003). Para ambos, embora o Instituto para a pesquisa social tenha sido fundado em 1923, na cidade alemã Frankfurt, a teoria crítica só se desenvolveu como tal a partir do contato dos teóricos dessa escola com a sociedade de massa (funcionalista) nos Estados Unidos. A vulgarização da arte e da cultura pela produção em série evidencia a oposição entre razão e intuição, a arte se distancia do seu autor e, assim, distorce a realidade que lhe é própria.
Apesar de Santos (2003) os ter generalizado como marxistas, é conveniente, como lembrou professora Sílvia, perguntar: de que marxismo se está falando? Para os críticos dessa escola, diferentemente de Marx que fala em classe dominante, há ideologias de classe. Essas produzem e impõem-se sobre os receptores do processo funcionalista. A questão da indústria cultural firma-se nesse aspecto, para Adorno, um dos críticos principais, ideologia é o processo responsável pela própria consciência social, portanto, não é produto.
Nota-se que tanto o funcionalismo quanto a teoria crítica constatam a industrialização da cultura criada pelos meios de comunicação. A divergência existencial está no que Polistichuk e Trinta (2003) chamam de proposição metafísica presente nos frankfurtianos que pretendiam transcender, pela filosofia, a pesquisa sociológica, enquanto os funcionalistas mantêm-se firmes na continuidade do sistema.
Embora Santos (2003) o tenha citado entre membros da Escola Sociológica Alemã, sem dar-lhe muito espaço, Sílvia Borelli dedicou uma manhã a Edgar Morin, explorando a questão da imagem e do imaginário que, estando muito além da mera representação de figuras e símbolos, sintetiza a comunicação humana que se realiza com o “duplo”. Para Morin, as dimensões real e imaginária estão muito próximas, sendo às vezes o imaginário mais real que o real.
Ir. Joana Puntel , abordando McLuhan, expôs a afirmação desse pensador sobre os meios. Segundo Polistichuk e Trinta (2003), a tese central de McLuhan é o determinismo tecnológico, ou seja, vê os meios de comunicação como um sistema complexo que envolve sujeitos, instrumentos, organizações e articulações de mídia que opera em todos os níveis da organização social, sobre a qual, instituindo novos hábitos de percepção, contribui decisivamente para uma nova configuração. No entanto, segundo Ir. Joana, esta é também uma das ideias de McLuhan mais criticadas, pois diante dessa supervalorização dos meios há praticamente a anulação das pessoas, como se apresentou no filme Simone em que um computador produz uma personagem fictícia de cinema.
Os Cultural Studies, na Inglaterra, abordados por Sílvia Borelli e os estudos culturais na América latina, trabalhados com o professor Mauro Wilton, foram superficialmente mencionados na obra base deste trabalho. Na sala de aula, porém, foram bem discutidos. A professora Sílvia explicitou a importância desses estudos no conhecimento da relação entre cultura e comunicação, principalmente a partir de Richard Hoggart que cria o Centre for Contemporany Cultural Studies que, segundo Escosteguy (2001) , dedica-se ao estudo das relações entre a cultura contemporânea e a sociedade. Usou ainda do pensamento de Raymond Willians, também membro do CCCS, que, de acordo com Escosteguy (2001), constrói um histórico do conceito de cultura, culminando na ideia de que a cultura comum pode ser vista como um modo de vida em condições de igualdade de existência com o mundo das artes, literatura e música, o que Sílvia exemplificou com o projeto de universidade aberta e alfabetização de adultos, por eles idealizado, bastante diferentes dos projetos assim nomeados no Brasil.
A professora Sílvia faz questão de enfatizar o ângulo do qual se pode compreender o marxismo presente nos Cultural Studies. Segundo ela, enquanto no marxismo original se fala da superioridade da infraestrutura sobre a superestrutura, colocando as materialidades econômicas acima da cultura, nos Cultural Studies o processo se inverte, através de um deslocamento de eixo. O que Gramsci chamou de hegemonia, ou seja, a prevalência de algo sobre o outro, processo de negociação do poder. Outro nome de referência é Stuart Hall, que substituiu Hoggart na direção dos estudos, incentivando várias linhas de pesquisa e projetos coletivos.
Sobre os estudos culturais na América Latina, como já citado, Professor Mauro reforçou motivos pelos quais Barbero considera que o indivíduo crie sua identidade pelos meios de comunicação, a partir de sua inserção no processo emissão-mediação-recepção. Tais razões partem das ideologias transmitidas que levam tanto à crise da solidez, referindo-se à Bauman, para quem todas as relações se liquefazem, quanto à busca pela subjetividade através de uma experiência singular de vida.
A questão não só da semiótica, mas também da semiologia, apresentou-se várias vezes na obra de Santos (2003). No SEPAC, a semiótica, mais especificamente, foi com toda a sua complexidade exposta pela professora Irene Machado , que quis já de início abordar as diferenças entre os dois termos acima citados. Embora se refiram a teoria geral dos signos, Saussure considera a semiologia uma disciplina de estudo da vida dos signos, enquanto Peirce considera a semiótica a ciência geral dos signos em suas relações lógicas. A faixa de estudo da semiótica, professora Irene definiu assim: “Toda e qualquer coisa que organize ou tenda organizar-se sob a forma de uma linguagem, verbal ou não, é objeto de estudo da semiótica”. A afirmação de Santos (2003) de que linguística, semiologia e semiótica são instrumentos valiosos para o estudo da comunicação, principalmente para a análise do conteúdo das mensagens presentes nos meios massivos, parece bastante pertinente, já que, segundo a professora, a linguagem dos meios é decifrada pelos códigos apresentados.
Ligado ao que o autor da obra base deste trabalho chamou comunicação e pós-modernidade, a aula Pós-modernidade e as novas racionalidades técnicas, com a professora Rose Rocha , somou elementos norteadores para a concepção desse processo comunicacional inserido na sociedade pós-moderna, a partir das mudanças de paradigmas estruturais. Segundo ela, o que se chama pós-modernidade é a resposta ao diagnóstico do mal estar da sociedade, que sofre da doença da impermanência, na qual muito se pensa e pouco se faz realmente, até mesmo em decorrência da dinamicidade do tempo e do espaço. A emergência do individualismo e dele, com a revolução tecnocientífica e microeletrônica, emerge a possibilidade de se comunicar cada vez mais à distância, sem a presença do outro. A pós-modernidade, sendo a era dos paradoxos e da velocidade, põe em dúvida a realidade das coisas, dando asas ao imaginário. Nela, pergunta-se pelo sujeito e por seu papel na construção da sociedade.
Numa observação mais de cunho eclesiológico, mas de profunda importância até mesmo por considerar a evolução da Igreja junto ao processo da comunicação, desenvolveu-se a aula de Ir. Joana Puntel, na qual desenvolveu a partir dos documentos da Igreja um percurso trilhado por ela, não só na visão do processo, mas também na orientação para a sua realização. Ir. Joana chamou a atenção para o diálogo entre fé e cultura em vista de uma evangelização dinâmica, justificando assim a passagem da comunicação eclesial junto aos momentos teóricos e históricos da comunicação social. Tal processo, com louvor, culmina no documento de Aparecida que diz: “Têm-se desenvolvido a pastoral da comunicação social, e mais do que nunca a Igreja tem contado com os meios de comunicação para a evangelização da cultura” . Além disso, a afirmação do Papa Bento XVI na carta encíclica Caritas in Veritate, sobre a necessidade de comprometimento dos meios com a verdade, o bem e a fraternidade em vista da promoção da dignidade humana representa a caminhada progressiva que faz a Igreja no rumo de uma pastoral transformadora em oposição àquela pastoral que o próprio Documento de Aparecida chama de pastoral de manutenção.
Quanto à prática laboratorial de rádio, com o professor Anderson Zotesso, numa análise das diversas teorias que sustentaram e, de algum modo, permitem compreender o processo da comunicação, há como pontuar elementos de várias delas, presentes na produção radiofônica.
O efeito massivo do rádio através da reprodução mecânica de músicas e programas depositados nos ouvintes tem carga funcionalista e por vezes parece suscetível à crítica dos frankfurtianos. Olhado a partir da teoria de Umberto Eco, da Escola Sociológica Alemã, o rádio, embora massivo, cede lugar preferencial à mensagem que transmite, essa pode ser conhecida a partir da sua análise estrutural, observação da relação entre seus elementos constituintes na geração do significado, assim, o meio mesmo que massivo pode ser informativo e educativo.
No entanto, se olhado sob a perspectiva de McLuhan, o rádio, como os outros meios, pode supervalorizar o meio e a mensagem tornar-se intrínseca. Ainda pensando com McLuham o uso do rádio como extensão da fala humana ajuda a maximizar o processo. O rádio ainda pode se inserir na ideia de aldeia global, promovendo a criação de tribos de escala planetária.
Além dessas, o rádio é capaz de traduzir-se em muitos pensamentos e análises, no entanto, o que parece importante é conhecer o papel do rádio na sociedade contemporânea e o papel do comunicador radiofônico na interação com a sua recepção através do meio de que usa.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Parafraseando Emílio Odebrecht, talvez seja conveniente dizer que o processo de comunicação se aprimora no conhecimento da influência sofrida e exercida em vista de acertar. Nos primeiros passos da comunicação interpessoal, parece-me que mais importante que se expressar, seja pela fala ainda precária, nos primeiros balbucios, seja pelos gestos sinalizadores, era entender e ser entendido, de modo que houvesse uma clareza no processo.
Da mesma forma que tomando consciência de seu existir no mundo o homem começou a refletir sobre tal aspecto, a sua evolução ao longo de todo esse tempo possibilitou-o, então, não somente a capacidade de expressão, mas principalmente a profunda reflexão que culminou também na tomada de consciência de que seu potencial comunicador era de fundamental importância na construção histórica da sociedade.
Sociedade essa, marcada por momentos de paradigmas de relações diversos. O dado da relação, que embora romantizante apresenta-se também como o desafio da interpessoalidade, aparece como a peça fundamental para a busca humana de conhecer-se enquanto ser de relações. Tomadas sob diversos ângulos, essas relações servem de base ao desenvolvimento das várias teorias da comunicação que são o processo e o produto dessas reflexões sócio-culturais.
A questão cultural, entendida a cultura como toda a produção humana para a satisfação de suas necessidades com capacidade de alavancar o homem no fluxo histórico, é, ao mesmo tempo, causa e efeito dentro do conjunto de relações. Se por um lado, esse até mais amplo, a cultura é o que movimenta a comunicação, que lhe dá sentido, por outro é ela produto dessa comunicação, uma vez que no desenrolar do processo, seu potencial dinâmico permite que sofra mutações e se adapte à realidade, ou até mesmo, crie novas realidades.
Essa temática da comunicação, compreendida dentro da relação cultura e sociedade, perpassa toda a questão presente no livro base, no sentido da observação de como o processo se dá. Aquilo que é de cunho biológico, como o desenvolvimento anatômico dos órgãos para a fala, soma-se ao que é de cunho intelectual, como a invenção e a convenção acerca da escrita, além daquilo que se foi refletindo ao longo de todo esse processo e dessa consciência acerca da origem, da importância e das consequências de tal processo na vida da sociedade.
Com efeito, como várias vezes disse professor Mauro Wilton, não há ideologia nua. A repercussão do processo comunicativo, principalmente a partir da massificação da comunicação e da globalização da cultura, está ligada às várias ideologias que se pretende propagar, de forma que se crie uma sociedade homogeneizada cada vez mais dependente e inconsciente do que há por trás de todo o sistema.
Esta é a era pós-moderna, nela as relações são bastante indefinidas, as identidades oscilam entre polos opostos e as informações chegam a tempo real às casas de onde as pessoas relacionam, mesmo sem ter contato, com a sociedade. Nesse protótipo de sociedade o real e o fictício fundem-se em padrões de aceitação, pelos quais os valores morais e éticos ora se disseminam, ora são denegridos, as famílias se amoldam àquelas que lhes são dadas como exemplo e a educação se sujeita àquilo que os detentores dos meios a permitem oferecer.
Embora os momentos se superem, muitas de suas características perduram ao longo do tempo. Mesmo na pós-modernidade estão presentes ideais funcionalistas que ainda criticamos com olhares frankfurtianos e que tanto como os primeiros, às vezes estamos a serviço da reprodução do sistema, quanto como os segundos, mantemos uma postura crítica e uma alternativa utópica de mudança. O caso é que apesar disso, a cultura continua matéria de indústria e seu sentido artístico primeiro se perde na falta de originalidade com o qual ela se reproduz.
A emergência da cultura pop é um sinal de que mesmo em meio a essa massificação presente na comunicação, embora o pop também use desses meios massivos, ainda pode haver medidas alternativas em que as pessoas das pequenas comunidades possam vivenciar e de algum modo difundir traços culturais que lhe sejam próprios.
Contudo, nota-se que hoje a sociedade é totalmente dependente dos sistemas de informação. Além das mídias tradicionais, as infomídias, principalmente a internet, assumem um papel imprescindível na manutenção da sociedade. Constatar isso pode não significar muito se não nos questionarmos quanto à necessidade de se criar uma consciência crítica acerca dessas mídias. É conveniente que nos perguntemos como nos inserimos nesse sistema e o quanto ele é capaz de nos envolver e de direcionar nossas ações e reflexões, ou pior, se ele é capaz de suprimir nossas reflexões e levar-nos a vivência de um conformismo.
Nisso os diversos pensadores citados no trabalho colaboraram. Inspirados na presença dos meios de comunicação e sua forma de atuação no tempo em que viveram, os pensadores ou escolas reproduziram da forma mais original possível a estrutura interna e a repercussão social da comunicação e da cultura, preocupando-se com a forma como a sociedade a enfrentaria e aceitaria no dia-a-dia.
Por fim, prevalece a ideia de que é importante conhecer o sistema em seu conjunto, não basta aceitar passivamente a forma como ele se impõe, mas é necessário que mesmo não podendo mudá-lo, com ele se aprenda a discernir e, assim conscientemente, escolher.

Cláudio Geraldo da Silva
Trabalho apresentado à PUC-SP/ SEPAC.

REFERÊNCIAS

BENTO XVI. Caritas in Veritate: Sobre o desenvolvimento humano integral na caridade e na verdade. São Paulo: Paulinas, 2009 (coleção A Voz do Papa).
Documento de Aparecida. Texto conclusivo da V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe. 5. ed. Brasília: Edições CNBB, 2005.
ESCOSTEGUY, Ana Carolina. Os estudos culturais. In: HOHLFELDT, Antonio; MARTINO, Luiz; FRANÇA, Vera Veiga. Teorias da comunicação: Conceitos, escolas e tendências. Petrópolis: Vozes, 2001.
MATTELART, Armand e Michèle. História das teorias da comunicação. 3. ed. São Paulo: Edições Loyola, 2000.
POLISTCHUK, Ilana; TRINTA, Aluizio Ramos. Teorias da comunicação: O pensamento e a prática da comunicação social. Rio de Janeiro: Campus, 2003.
SANTOS, Roberto Elísio dos. As teorias da comunicação: da fala a internet. São Paulo: Paulinas, 2003 (Coleção Comunicação-estudos)