sexta-feira, 17 de setembro de 2010

O primeiro capítulo do livro Ética dos maiores mestres através da história, de Olinto Pegoraro, traz o nascimento da ética na idade grega, considerando a ética da transcendência em Platão e a ética da imanência em Aristóteles. Basicamente as duas se divergem quanto à relação homem/sociedade. Enquanto Platão considera que as coisas humanas, sensíveis, são cópias das coisas ideais, supra-sensíveis, Aristóteles encontra razões naturais para as coisas, justificando-as em si mesmas.
Basicamente os três fundadores da filosofia grega são Sócrates, Platão e Aristóteles. Platão foi discípulo de Sócrates e toda a obra socrática deve-se a ele. Já Aristóteles, mesmo sendo discípulo de Platão, toma rumos contrários em sua filosofia. Em comum, todos têm a preocupação grega com a polis, partindo daí vem o zelo com a educação e formação de valores, para que o homem seja bom cidadão.
Em Platão o princípio supremo é o bem absoluto que aparece na República, mas toda sua obra gira em torno dessa categoria. As ações humanas no nível imanente, segundo ele, são medidas pelo bem transcendente. Daí a ideia de virtude, que nesse pensamento tem caráter definitivamente moral, levando à purificação da alma e à ascensão ao mundo superior. Isso através das relações de justiça que regem os elementos internos do homem, sua relação com a polis e com elementos superiores.
O máximo está na relação política, para qual, através do exercício da cidadania, o homem grego é formado. Platão reconhece que a sociedade é formada pelos indivíduos e sugere um governo aristocrático. Nele os sábios governariam, garantindo o equilíbrio entre todas as classes sociais, numa relação de justiça, que é o cerne da ética platônica.
Já Aristóteles possui um pensamento sobre ética mais sistematizado que Platão, como a Ética a Nicômaco, que dedica à educação de seu filho. Nele, a ética está em quatro eixos, conforme os quais ela é natural, finalista, racional e heterônoma. Isso valeu por durante quase 2000 anos, até ser convincentemente contra-argumentada na era moderna.
Em síntese, as idéias sustentadas nesses eixos estão em relação à aplicação da ética ao homem e à relação deste com a natureza e a sociedade. Ao dizer que ela é natural, quer no fundo mostrar que sendo o homem matéria como os demais seres, portanto imanente, ela desempenha também uma função metafísica. Clareia a ideia as relações de ato e potência, que expressam a dialética do movimento do homem com a natureza, do seu constante vir a ser. A ética, nesse caso, está na orientação para a liberdade.
Dessa liberdade, decorrente da causa, provém a relação de finalidade. Em Aristóteles, determinadas causas têm determinados fins. Como em Platão, causas éticas têm sempre como fim o bem. Contudo, aqui existe uma hierarquia de bens que se dispõem conforme a busca da felicidade se apresentar. Esta deve ser uma função da alma, só desse modo será buscada pelo uso da razão, como faculdade própria dos humanos, com princípios éticos. No entanto, à felicidade Aristóteles recomenda não apenas princípios interiores, mas também bens exteriores, como a amizade, por exemplo.
A racionalidade da ética é a sua dimensão que ajuda a controlar os instintos humanos, mesmo assim não podendo aniquilá-los ou suprimi-los. Esses instintos, em si mesmos, não são éticos ou antiéticos, mas assumem tal dimensão quando a capacidade intelectiva age sobre eles, dando-lhes cumprimento, esse sim, pode ser ético ou não. Prudência e sabedoria são virtudes intelectivas que agem sobre os instintos humanos. Pela primeira, o intelecto humano governa as tendências da sensibilidade e do instinto. Pela segunda, eleva-se acima das realidades mutáveis, chegando às verdadeiras essências das coisas, que são o bem, a justiça e a verdade.
Também a relação cidadão/polis é importante em Aristóteles. Cidadão não é apenas aquele que mora na cidade, mas aquele que ajuda a administrá-la, fazendo e executando suas leis, por isso são poucos na polis pensada por Aristóteles. Os homens são regidos por uma constituição que define as leis e estabelece a autoridade e as funções públicas. Sobre o governo, aceita as formas monárquico, aristocrático e democrático exercido por muitos e repudia a tirania, a oligarquia e a democracia exercida por poucos. Assim, a formação do cidadão para a justiça e o gerenciamento do bem comum a todos são os dois eixos da ética e da política aristotélica que se verificará numa polis estável e pacífica.
O que se verifica do modelo ético grego é a fundamentação que faz na relação do homem com a natureza. O homem grego, embora essa ideia venha carregada de vícios, pauta seu agir moral na dimensão completa de si mesmo, de seu autoconhecimento. Tanto Platão quanto Aristóteles idealizam um homem que, vivendo em padrões éticos, se coloque em relação à sociedade como um fator construtivo, transformador, fazendo-a melhor, seja por sua autonomia, entendida no estagirita, ou pela reprodução das formas ideais, conhecidas no discípulo de Sócrates.


Trabalho apresentado a disciplina Ética II - professor Edmar Martins