sábado, 19 de junho de 2010

Introdução à hermenêutica

O texto de Alexandre Araújo Costa, cujo objetivo é introduzir elementos de hermenêutica filosófica, no seu sentido entendido como disciplina, apresenta-a como aquela responsável por dar sentido à forma humana de dar sentido ao mundo.
Segundo o autor, esses sentidos, dados ao mundo, têm na linguagem seu espaço privilegiado, usando assim do discurso, que constrói leis, teorias, romances e paradigmas. Desse modo, a hermenêutica é um discurso acerca do modo humano de lidar com essas significações que se atribui às coisas.
Os discursos são, então, constituintes da realidade, estando fora deles apenas o mundo empírico. Assim, hermenêutica permite conhecer o mundo experimentado, interpretando-o, que quer dizer aquilo que a hermenêutica é, em seu sentido primeiro, dar sentido ao mundo e às coisas.
O passo filosófico dado foi partir da explicação do mundo, presente nos gregos, medievais e nos cientistas modernos, para a interpretação do mundo, numa perspectiva filosófica iniciada na era moderna e plenificada na contemporaneidade, com pensadores como Wittgenstein e Gadamer.
O discurso filosófico, que é hermenêutica, se difere do discurso científico. Enquanto a hermenêutica trata as essências do mundo, simbolizando-o e refletindo ele mesmo, a ciência trata as exterioridades, falando do mundo empírico, representando-o mimeticamente. Portanto, “a ciência é um discurso que não tem espelhos para se observar”. Contudo, a hermenêutica se insere na ciência, ao passo que discute o discurso científico, já não sendo mais uma reflexão científica, mas filosófica. É nesse momento, acentuado a partir do século XIX, que se desenvolve uma crítica ao discurso científico tornado metafísico, apresentado por Nietzsche e Husserl.
Assim como ao discurso científico falta a reflexividade, falta-a também ao discurso dogmático, típico da religião e do direito. No entanto, a esse segundo conta a subjetividade, colocada ante a objetividade científica; sem, contudo, deixar de misturar verdade e validade, uma vez que se baseia em fatos empíricos e não transparentes.
As relações entre fé e ciência se estabelecem nesse plano. Enquanto a primeira estabelece valores inquestionáveis, mantidos pela tradição, a segunda se baseia em verdades evidentes, de uma lógica racional. Desse modo, a hermenêutica que se coloca entre esses dois discursos, está, segundo o autor, presente em um determinado momento em que o que há é o silêncio, bem característico da impossibilidade da argumentação diante da afirmação.
O último passo desse salto da análise do discurso presente na hermenêutica moderna é a desvalorização pós-moderna, citada pelo autor lembrando Lyotard, das grandes narrativas. Neste período histórico, não se acredita mais nas tentativas de manter a unidade da verdade, agora fragmentada e particularizada, criando novos contextos. Nisso radicaliza-se o relativismo, negando a possibilidade de um discurso que abranja a tudo.
A hermenêutica é, para o autor, o principal fator de agregação dos elementos constituintes particularizados de explicação do mundo. Para isso, usa das diversas formas presentes nos discursos.

Cláudio Geraldo da Silva
Trabalho apresentado à Hermenêutica filosófica. Professor Edmar. SDNSR

Conhecimento demais compromete a liberdade?

Diz o senso comum que saber não ocupa lugar. A simples análise da vida humana leva a essa compreensão, principalmente quando o homem se percebe constantemente em criação. Criado e recriado a cada dia, para as mesmas coisas, sempre vistas sob ângulos diferentes. Apesar disso, como diz Paulo Freire, “cada ponto de vista, é a vista de um ponto”. Assim, mesmo a partir de análises simplistas como essa, o lugar do conhecimento humano aparece como que em destaque nas suas preferências, e mais que isso, necessidades. Sendo, portanto, um animal em gaio e constante aprendizado.
Contudo, como citamos em sala, contextualizando a discussão ao escrito de Corrado Fratini, em Homem Retalhado, vimos que o conhecimento é fundamental na justificativa da ação humana, podendo agir com liberdade de escolha e decisão, tanto quanto seu senso de sabedoria o permitir, como se afirma na seguinte fragmento: “Cada um é pois responsável por aquilo que sabe, e só por aquilo que sabe. Não há responsabilidade sem conhecimento ou além do conhecimento” (FRATINI, 1980, p. 219).
Apesar disso, é evidente também que o homem nunca alcança satisfação intelectual. Caso contrário caberia perguntar o que faz um senhor de 102 anos, como o célebre Oscar Niemayer, receber diariamente em sua casa um professor de filosofia, para longas e profundas discussões. Em face disso, caberia ainda a questão: que tanto de conhecimento é demais? Qual é o ponto de passagem entre o conhecimento que liberta e o que aprisiona? Ou ainda: Os fatores realmente condicionam a liberdade humana, dizem respeito à posse ou ao uso do conhecimento?
A máxima socrática “só sei que nada sei” é a síntese do direcionamento do conhecimento para a liberdade de seu possuidor. Embora de aparência paradoxal, diante da condenação à sicuta, a atuação de Sócrates junto ao seu tempo revelou que o conhecimento contido no homem pode ser usado para a libertação dos seus semelhantes, mesmo que pela escolha do uso da liberdade em determinados fins, a consequência final seja a privação dela.
O eixo da questão parece permanecer não apenas no conhecimento adquirido e acumulado, mas na responsabilidade que o ser inteligente deve ter na sua conduta. Se, como diz Fratini (1980), o mundo é efeito de ato-inteligência, a participação humana nele também deve se pautar nessa mesma lógica, na qual o homem se assume como ponto ideal de referência.

Cláudio Geraldo da Silva
Trabalho entregue ao professor Edmar, de ética I. SDNSR

Pastoral da comunicação: Diálogo entre fé e cultura

O presente trabalho refere-se ao módulo Políticas da Comunicação, do curso de especialização Cultura e meios de comunicação: Uma abordagem teórico-prática, realizado no SEPAC no mês de janeiro de 2010. Tem por objetivo manifestar, numa síntese, parte do processo de aprendizagem e de busca de aprofundamento naquilo que se estudou no período.
Para tanto, conforme orientação, toma-se como base à primeira parte desse trabalho o livro Pastoral da comunicação: Diálogo entre fé e cultura, de Joana T. Puntel e Helena Corazza, do qual se apresentará uma síntese. A segunda parte procura estabelecer uma relação direta e indireta entre aquilo que o livro apresenta com o conteúdo das diversas aulas ministradas no decorrer do curso, inclusive no que se refere ao laboratório.
Quanto à síntese do livro, dar-se-á a partir da estrutura elaborada pelas próprias autoras, dividida em quatro partes. De início, se abordará elementos presentes no diálogo entre fé e cultura, dentro da pastoral da comunicação, a partir da motivação dos 50 anos da Pascom e de documentos usados pelas autoras. A seguir, será mencionada a progressiva insistência da Igreja em vista de uma formação para a comunicação ao longo de sua trajetória histórica. Depois, pretende-se colocar diversos pontos para a organização da pastoral da comunicação, listando partes de um planejamento. Por último, falar um pouco da espiritualidade da comunicação, a partir da participação humana no projeto criador de Deus.
Já para o segundo momento do trabalho, objetiva-se colocar pontos da exposição dos professores diante do que é trabalhado no livro no intuito de perceber, através de um diálogo de ideias, as relações que a Pascom estabelece com toda a reflexão acadêmica sobre políticas da comunicação.
O que será colocado a título de considerações finais é produto de reflexões acerca do assunto e impressões daquilo que se apresentou. Nelas serão pontuadas observações mais pessoais sobre a forma como a Igreja se insere no campo da cultura de mídia e como os agentes da Pascom podem colaborar com uma pastoral renovadora da Igreja frente à sociedade.
Assim, o trabalho que segue é fruto de observações, anotações, leitura, reflexão, questionamentos e, por último, de aprendizado real, sendo também ele material para tal conquista. Apresenta-se, então, um esboço organizado daquilo que marcou o segundo módulo, seja na sala de aulas, seja em sua extensão nos estudos posteriores.
Capítulo I
PASTORAL DA COMUNICAÇÃO: DIÁLOGO ENTRE FÉ E CULTURA

De modo geral, o livro Pastoral da Comunicação: Diálogo entre fé e cultura apresenta a crescente preocupação da Igreja com a questão da comunicação dentro de sua perspectiva pastoral, a partir de seus diversos documentos e iniciativas.
Usando de uma linguagem simples, as autoras traçam um caminho para a compreensão, planejamento, implantação e continuidade da Pascom. A longa e profunda experiência que trazem, somadas ao dinamismo e entusiasmo que lhe são peculiares, faz com que a obra de Puntel e Corazza manifeste, como expressão de amor, o intenso zelo que têm para com o bom funcionamento da Pastoral da Comunicação na Igreja, desde as dioceses até as comunidades de base.
Na introdução à obra, as autoras relembram a afirmação de João Paulo II quanto à necessidade de se evangelizar a partir dos novos areópagos, que têm sido descuidados. Daí a perspectiva do avanço do anúncio pelas novas mídias e nelas.
No conjunto em que a obra se apresenta, a Pascom pode ser entendida num contexto de Igreja e sociedade, fazendo necessária sua presença para um melhor entrosamento entre as partes e uma pastoral de conjunto, bem organizada e efetiva.

1.1 – Pastoral da Comunicação: diálogo entre fé e cultura

Editado em 2007, o livro comemora os 50 anos da Pascom, surgida com a carta encíclica Miranda Prorsus, escrita pelo papa Pio XII em 1957, momento em que a televisão e o rádio começam a popularizarem-se e nasce a preocupação da Igreja com a educação de seus receptores. Para esses, seriam criados organismos nacionais que não só preservassem e defendessem, mas também dirigissem, coordenassem e prestassem assistência às obras educativas dentro do campo das técnicas difusoras.
Segundo as autoras é importante fazer uma passagem conceitual quanto à compreensão de comunicação por vezes presente, inclusive nos documentos da Igreja. Isso através de uma nova visão que compreenda a “comunicação como um processo que envolva, por sua vez, muitos elementos, aspectos, interatividade, e que, portanto, não pode ser considerada de modo isolado” (PUNTEL, CORAZZA, 2007, p. 21). Ou seja, é necessária a mudança da mentalidade estática de que a comunicação se resume apenas no uso da técnica, mas, pelo contrário, seu fenômeno e implicações devem ser considerados, numa análise de conjunto da sociedade, aberta às novas tendências culturais e tecnológicas, sem, no entanto, perder a dimensão do pastoreio, tão essencial à Igreja.
Trata-se, segundo as autoras, de promover o diálogo entre fé e cultura, dando seguimento à afirmação de Paulo VI: “a ruptura entre o evangelho e a cultura é, sem dúvida, o drama de nossa época ”. A proposta é, seguindo a pedagogia de Jesus, dar passos graduais no estabelecimento da Pascom. “Daí a importância e o convite para a Igreja reconhecer, refletir e iluminar esse revolucionário lugar teológico, que sempre mais provoca a mudança de paradigmas, linguagens e métodos pastorais na evangelização atual” (PUNTEL, CORAZZA, 2007, p. 29), que é a cultura midiática, com quem se vai dialogar.
Para estabelecer esse diálogo, a Pascom necessita conhecer com profundidade elementos fundamentais da cultura atual, principalmente a crescente discussão quanto à crise da modernidade em face da pós-modernidade, e, consequentemente em toda a sua complexidade, à crise de identidade dos povos, estendida às comunidades.
A influência que a cultura midiática exerce sobre os indivíduos também aparece como fator de instabilidade para a Pascom, uma vez que volatiliza valores e relativiza padrões. Contudo, a comunicação pode ser considerada como elemento articulador da sociedade pela capacidade de fazer circular ideias, mesmo suscetível às constantes mudanças de cunho tecnológico, que, comparando a invenção da imprensa às autoestradas telemáticas e à realidade virtual, muito a transformou.
Assim, a comunicação na pós-modernidade inaugura um complexo modo de vida, integrando todo o mundo numa vasta rede digital. A Pascom precisa não apenas preparar-se para o uso profissional da técnica, mas de tomar consciência das mudanças exercidas pelas novas tecnologias sobre as pessoas e a sociedade, nas diversas relações. Precisa ser, portanto, uma pastoral midiática. São necessárias competência e prudência, para, no uso dos meios tecnológicos, promover uma justa reflexão sobre seu papel, estabelecendo eixos essenciais que deem coesão de princípios, pautados numa atividade ética e que ajudem as pessoas a encontrarem sentido à fé que assumiram dentro de sua própria cultura.



1.2 – Formação para a comunicação: A progressiva insistência da Igreja

O segundo capítulo da obra percorre o caminho da Igreja quanto à comunicação, relacionando as diversas concepções empreendidas ao longo da história. Coloca também a preocupação com a boa formação para seu exercício, principalmente nos tempos atuais de cultura midiática.
Embora, como já citado, a Pascom tenha surgido em 1957, com a carta encíclica Miranda Prorsus, já em 1936, com a encíclica Vigilanti Cura , a igreja manifestava preocupação com o receptor. Com o decreto Inter Mirifica, de 1963, a Igreja assume posições mais claras quanto à comunicação, reforçando a necessidade de se cuidar dos receptores, mas também de preparar-se para atuar no mundo da comunicação. Já a Communio et Progresso , de 1971, reforça a boa formação da consciência quanto à qualidade da informação recebida e, principalmente, quanto à preparação eficiente para usar das possibilidades de expressão nos meios, que devem agora ser problematizados nas disciplinas teológicas, especialmente na teologia moral, pastoral e catequética. Communio et Progresso manifesta ainda preocupação com a formação de sacerdotes e religiosos para a incidência dos meios na sociedade, em vista de um apostolado eficaz.
Apesar dos avanços atingidos até então, continua muito presente a preocupação da Igreja apenas com os meios. Só com a encíclica Redemptoris Missio , de 1990, é que os meios passam a ser vistos como uma nova cultura, a cultura midiática, e que dela não se pode descuidar, porque é o novo areópago da missão. Diz: “Não é suficiente, portanto, usá-los para difundir a mensagem cristã e o magistério da Igreja, mas é preciso integrar a mensagem nessa nova cultura, criada pelas modernas comunicações” (RM apud PUNTEL; CORAZZA, 2007, p. 63).
Em 1992, o documento Aetatis Novae convida para uma educação e aprimoramento dos engajados na Pascom para uma comunicação consciente. Preocupa-se ainda com a formação espiritual e com a assistência pastoral para aqueles que trabalham nos diversos canais de mídia não católicos. A partir de então começa a haver um novo enfoque na discussão da Igreja sobre comunicação, considerando o pleno desenvolvimento da era digital. Surge, no ano 2000, o documento Ética nas comunicações sociais e em 2002 os documentos Igreja e Internet e Ética na Internet .
As oportunidades e os desafios do ciberespaço estão diante da Igreja e da Pascom, como uma das questões a serem afrontadas nesta nova era da comunicação. Muitos sites da Web já são de conteúdo cristão e muitos, não cristãos, abortam temas religiosos. Informações multiplicam-se velozmente, às vezes sem controle. A afirmação é de que não basta aos cristãos serem informados, mas também informadores com consciência cristã.
É a preocupação dos dois últimos documentos citados. Eles querem fazer da internet um ponto de força para a evangelização, usando de sua abrangência para envolver sempre mais pessoas e valores relacionados na rede.
A insistência da Igreja em razão da formação justifica-se nas palavras de João Paulo II, ao afirmar que as novas linguagens introduzidas pelos meios de comunicação influenciam nas relações humanas, necessitando, portanto, de uma formação adequada para evitar que os meios, que deveriam estar a serviço das pessoas, as instrumentalize.

1.3 – Organização da Pastoral da Comunicação

A partir da recomendação de Aetatis Novae para que cada conferência episcopal e cada diocese elaborem um plano pastoral completo de comunicação, ou seja, que se dê um “novo enfoque para os planos pastorais para que a ótica da comunicação perpasse toda a ação evangelizadora da Igreja” (PUNTEL, CORAZZA, 2007, p. 81-82), é que a Igreja abraçou de fato a Pascom.
A pastoral da comunicação assume um lugar integrador na Igreja, englobando todos os planos pastorais, a fim de que os membros da comunidade se assumam na cultura midiática, envolvendo toda a vida e ação da Igreja. Para tanto, é necessária na programação do processo de gestão contemplar a formação das lideranças, estudar documentos oficiais, tornar conhecido o significado da nova cultura da comunicação, assim como seu impacto e influência na sociedade e na percepção da fé. Deve fazer convergir diversas linhas da comunicação para a pastoral, estimular a colaboração entre as pastorais, ajudar aos catequistas revisar e atualizar métodos de ensino, além de formar comunicadores inseridos nesse plano pastoral. Pretende ainda formar continuamente ministros ordenados, assim como famílias, jovens e crianças, promover o acesso a publicações católicas e também marcar presença nos meios de comunicação locais.
Nas paróquias e dioceses o planejamento deve envolver todas as coordenações e pastorais, sendo desenvolvido por uma equipe diocesana de comunicação, com representação de cada área pastoral, em sintonia com toda a coordenação pastoral, assim também deve acontecer nas paróquias. As equipes diocesanas e paroquiais devem trabalhar em consonância, em cumprimento de um plano de articulação.
O planejamento integrado deve envolver diocese e paróquias, paróquias e comunidades, todas as pastorais e as pessoas, através do pensamento comum, estabelecendo vínculos pessoais e pastorais.
A Pascom é uma pastoral específica na Igreja e segue um organograma, partindo das Organizações Católicas (UCIP e SIGNIS) e estendendo-se ao Pontifício Conselho para as Comunicações Sociais, em Roma, para o DECOS (Departamento de Comunicação Social), na América Latina, para a CNBB, para os regionais, dioceses e paróquias.
Para o funcionamento da Pascom é necessário que as pessoas envolvidas tenham alguma formação na área, compreendam o campo da cultura da comunicação e amem a missão, buscando conhecer melhor a área Igreja e comunicação. Assumirem-se gestores do processo sem estrelismo, através do espírito de Igreja e comunidade. A equipe deve formar a consciência da comunidade sobre ser comunicação e ajudar a dinamizar a vida de comunicação da comunidade.
A Pascom abrange todas as pessoas e pastorais. Externamente, divulga as ações para a sociedade através dos diversos meios e relações pessoais e culturais. Internamente, interage as pastorais, promovendo o diálogo e a informação entre elas e ajuda na acolhida, catequese, liturgia, sempre num processo relacional em vista do desenvolvimento humano.
Em Aetatis Novae a Igreja estabelece algumas linhas orientadoras para o planejamento da Pascom de modo que integre estrutural e pastoralmente todos os setores da Igreja. Para esse planejamento deve-se partir de uma análise da realidade, depois identificar as prioridades, definir os objetivos e metas e estabelecer temáticas. Deve ainda deixar alternativas pensadas, para, após a avaliação, se preciso, usá-las.

1.4 – Espiritualidade da Comunicação

Sendo uma Pastoral, a Pascom deve estar alicerçada primeiramente na espiritualidade, “pois ela é seiva que dá vida aos ramos” (PUNTEL, CORAZZA, 2007, p. 111). É a dinâmica e vivacidade da Palavra de Deus que torna efetiva a Pascom. Durante toda a história da salvação, Deus se comunicou com o seu povo, a Pastoral da Comunicação quer colaborar nesse processo, ajudando Deus a continuar comunicando salvação ao seu povo. É relação, é entrosamento, envolvimento geral.
Pela comunicação o ser humano une-se ao ato criador de Deus, tornando-se sujeito do processo. O homem continua a criação quando descobre novas tecnologias no campo da comunicação e colabora com o progresso da humanidade. Quando se reconhece partícipe da criação, o homem assume sua importância no desenvolvimento histórico, social e religioso da obra de Deus. Quando, ao contrário, se fecha em seu mundo isolado, nega aos seus a oportunidade de crescerem juntos e deixa de sentir o amor que motiva a vida humana em Deus.
A figura de Jesus, como o comunicador do Pai, manifesta a perfeita relação entre Deus e o homem, a ponto de Ele mesmo se fazer humano, pra melhor se revelar. A afirmação de Jesus como Caminho, Verdade e Vida “é uma proposta de espiritualidade que envolve a pessoa no seu todo” (PUNTEL, CORAZZA, 2007, p. 116). É preciso estar com ele sempre.
Como proposta para a formação de uma sólida espiritualidade do agente da Pascom, as autoras sugerem ainda na obra uma série de belas orações para rezar a comunicação. Entre elas estão presentes textos mais clássicos, como Jesus, Perfeito comunicador e Oração pelos comunicadores, de Irmã Joana Puntel, que reafirmam a vinda de Jesus como Caminho, verdade e Vida e pede por todos os engajados na comunicação; a Oração do internauta, de Adriana Zuchetto, na qual se pede que todos os internautas sintam a felicidade de encontrar Jesus, andarilho nas autopistas do ciberespaço; os belos O tempo e o momento e Hipóteses e teorias, de Edna Pires; além de outros, inclusive de bem-aventurado Tiago Alberione.

Capítulo II
PASTORAL DA COMUNICAÇÃO: RELAÇÃO LIVRO – SALA DE AULA

As políticas da comunicação, assunto abordado nesse módulo, permeiam toda a estrutura da Pascom. Sendo ela a posição participante da Igreja no processo de comunicação na cultura midiática, está também inserida em toda a discussão ética, política, sociológica e tecnológica, bastante refletida no último módulo.
Falando da “Fundamentação ética nas políticas de comunicação”, o professor Francisco Serralvo lembrou a origem dos termos ética e moral, buscando uma reflexão acerca dos fundamentos que delimitam esse campo, dentro da perspectiva profissional de comunicação, no contexto da economia de mercado. A questão ética tem se apresentado como um desafio, uma vez que, segundo o professor, sua função é estabelecer uma relação mais justa dentro das estruturas sociais.
Assim coloca-se a preocupação da Igreja, que Puntel e Corazza (2007) lembram ao mencionarem os documentos Ética na publicidade (1997), Ética nas comunicações sociais (2000) e Ética na internet (2002). Na visão das autoras, esses os princípios éticos devem pautar-se na solidariedade, subsidiaridade, justiça, equidade e verdade, não se prendendo apenas ao conteúdo, mas também ao sistema que o envolve.
Professor Mauro Wilton abordou com seriedade a constatação, da qual Puntel e Corazza (2007) também falam, de que houve um rompimento de época, fruto da crise da modernidade, que resultou na pós-modernidade. Nela, palco da globalização, o global e o local, ou na expressão própria de Mauro, “glocal”, interagem-se, naquilo que professor Mauro chamou de blocos e regiões, sendo novas distribuições do poder midiático, uma vez que a comunicação é essencialmente relacional e, como ele mesmo diz, citando Foucault, toda relação é uma relação de poder, que é mediado pela Igreja, pelo Estado e pela Economia.
Mauro Wilton, noutra aula, falou ainda das políticas públicas, dos confrontos entre o bem comum, os interesses privados e a opinião pública. A luta pela real implantação da Pascom se dá no sentido de garantir que todo o processo esteja em favor de todos, mesmo que agindo a partir de “coletivo virtualizado”, como diz Mauro, entendendo que o poder não está nos meios, mas na vida que eles produzem.
A professora Sílvia Borelli abordou outro tema muito presente também na obra de Puntel e Corazza (2007) que são os desafios e políticas de comunicação na perspectiva das novas identidades e do multiculturalismo, principalmente quanto às novas identidades. Sobre isso, citando Stuart Hall, as autoras lembram a fragmentação do indivíduo, que é parte do processo de mudança. Outra relação muito clara entre aula e livro é a afirmação de professora Sílvia de que as transformações acontecem muito rapidamente e que o maior processo de comunicação está no campo da cultura e das comunicações. O que na expressão de Puntel e Corazza (2007) é buscar conhecer e admitir a mudança tecnológica comunicativa, que acontece hoje como fenômeno global, conjugada com tantos aspectos da vida social.
Outro conteúdo ministrado por Sílvia Borelli foi com relação às novas tecnologias e novas mídias, sob o eixo da inclusão e da exclusão. Segundo a professora, o novo vem caracterizado pelo diálogo com suas bases, se requalificando, cabendo a qualquer momento do que é novo, pensar em quais aspectos inclui e exclui. Como pastoral da integração, a Pascom refaz constantemente essa avaliação frente ao novo, mantendo-se aberta às novas tecnologias em face de atuar com consciência dentro das novas mídias, de modo que todos sejam incluídos no processo.
A professora Rosemary Segurado tratou das políticas de concessão das diversas mídias, percorrendo um percurso histórico dessas concessões no Brasil. Usando dos recursos de diversas mídias e em diálogo com a cultura midiática, a Pascom precisa também, segundo as autoras, organizar-se de tal modo que consiga enquadrar-se nos requisitos legais em vista de um testemunho ético e coerente na evangelização.
O eixo central do livro foi trabalhado em sala de aula com mais precisão por uma de suas autoras, a irmã Joana Puntel , com o tema Igreja: sua identificação e as políticas de comunicação. A professora, para quem as políticas de comunicação são uma decorrência da identidade cristã, partiu de constatações sociológicas no campo da comunicação, entrelaçando-as às constatações da linha eclesial, traçando também uma trajetória histórica, destacando o surgimento da Campanha da Fraternidade em 1664, como importante iniciativa de comunicação e estratégia comunicacional da Igreja. Abordou também temas como a identidade da missão e os desafios de fazê-la hoje.
Ressaltou elementos presentes no livro, como o conhecimento do interlocutor através do estudo da mediação, dentro do diálogo fé e cultura. Sobre a Pascom, enfatizou a necessidade de se somar forças no interior da Igreja em vista de ajudar na sua atualização. Lembrou ainda a importância da Pascom como pastoral da integração, que encampa as demais pastorais.
Cecília Peruzzo , falando de mídias alternativas e comunitárias, lembrou que não são somente fuga do convencional e não se referem apenas aos meios, mas a processos mais amplos. No geral, estão ligadas às expressões populares de cunho crítico, que a própria Igreja muito usa, principalmente nas comunidades de base, sempre em vista da justiça social. Quando Puntel e Corazza (2007) falam da comunicação na Igreja sob o ângulo prático da relação entre comunidade e sociedade, elas listam meios como boletins, jornais e programas de rádio e TV. Salvos alguns casos mais raros, a grande maioria desses órgãos usados na Pascom têm esse caráter alternativo e comunitário, uma vez que são expressões de pequeno alcance e revelam a organização popular das comunidades, ou representam alguma alternativa diante dos grandes veículos oficiais de comunicação.
A nova fronteira do evangelho, que as autoras consideram o ciberespaço, de um modo mais amplo, considerando todas as mídias digitais, foi apresentada com propriedade pela professora Marlyvan Moraes . Segundo ela, são mídias pós-massivas, baseadas na usabilidade, nas quais a produção é descentralizada e em tempo real.
Puntel e Corazza (2007) ao falarem de uma perspectiva de futuro da comunicação, lembram as autoestradas eletrônicas, que colocam todo o planeta numa imensa rede comunicativa, que permite a qualquer um em qualquer lugar entrar em contato com todo o mundo. Falando de sociedade de redes, a professora Rose Melo Rocha enfatizou que as redes determinam o desenvolvimento da sociedade, tanto fisicamente, por meio das redes materiais, como virtualmente, pelas redes simbólicas. A afirmação de Puntel e Corazza (2007, p. 47) de que “não se poderá mais viver senão em rede” associa-se a colocação de Rose quanto à apropriação das redes digitais de caracteres próprios das redes primitivas. Ou seja, o ser que é necessariamente social adapta-se e permite-se criar e envolver-se em redes que se atualizam constantemente.
Também no laboratório os dois eixos – política e pastoral da comunicação – foram bem notados. Com auxílio da professora Margarete Pedro e do professor José Reis diversos dos pontos discutidos na parte expositiva do curso foram retomados e rediscutidos, na perspectiva da ação prática.
Todo o processo de produção de um jornal está envolvido por uma política, diga-se da comunicação, que estabelece condições e limites. Daí a tomada de posições éticas diante de diversos assuntos; o cuidado com a pessoa humana envolvida, a preservação de sua dignidade; a imparcialidade e a capacidade de escuta dos diversos lados tratados; até mesmo a coerência com as fontes e com o leitor são condições dessa política. A escolha de tipos, cores e imagens também são elementos de uma política para a sensibilização do consumidor.
Pastoralmente, o jornal se apresenta como veículo alternativo e comunitário, colocado em vista de uma evangelização comprometida com a verdade e com o crescimento do reino de Deus. Embora ainda muito vertical, a informação veiculada nesses jornais são “interativas” na medida em que as comunidades se envolvem na sua elaboração, representando, de fato, a vida e os interesses do público. Em face disso, o laboratório permitiu conhecer noções de elaboração de um bom material impresso para as dioceses e paróquias, a partir do domínio de recursos textuais e gráficos apresentados, e também devido ao zelo individualizado da professora em analisar as diversas produções trazidas pelos alunos e sugerir mudanças.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A constatação de que não estamos apenas numa época de mudanças, mas também numa mudança de época é ponto de partida para a compreensão preliminar de que estamos envolvidos por uma cultura essencialmente midiática, fruto de uma pós-modernidade subjetivada e consequência inevitável da crise na qual a modernidade se viu.
Nesse cenário de identidades diversas a Pascom, se coloca como uma porta aberta pela Igreja e para ela mesma, na tentativa de um diálogo entre o dado religioso e a cultura dominante na qual a própria Igreja se insere e com quem ela dialoga. A atuação pastoral da Igreja, envolvida de todos os lados pela comunicação, está em vista de assumir-se parte dessa cultura, permitindo aos indivíduos diversos tomarem conhecimento da Boa Nova anunciada.
Como visto, a preocupação da Igreja com a sua posição diante das mídias, e muito mais, diante do processo que envolve toda a cultura de mídia, é latente. São muitos anos de árduo esforço, a partir de diversos documentos e encíclicas, para que a Igreja, de modo geral, entrasse nesse diálogo, portando-se de acordo com os valores cristãos que sempre defendeu, objetivando, de algum modo, também catequizar a cultura.
As reflexões das irmãs Joana Puntel e Helena Corazza são respostas de uma Igreja atenta às necessidades do tempo. A ideia que sustentam de que uma Pastoral da Comunicação só pode se estruturar com firmeza sobre o solo da cultura atual se bem conhecido, justifica as diversas discussões e estudos oferecidos pelo SEPAC na perspectiva de amadurecer a visão contemporânea das mídias e das identidades pessoais.
As constantes transformações digitais, a imensidão do ciberespaço, à perspectiva das autoestradas virtuais e a virtualização das relações, no plano real, são desafios que a Igreja pode enfrentar usando dos benefícios da Pascom como organismo de integração das diversas pastorais e como elo entre Igreja e sociedade midiatizada, estando sempre mais apta a enfrentá-los, tanto mais dedicada em conhecê-los.
Contudo, o grande perigo é fazer da Pascom alavanca para estrelismos pessoais. É preciso que na humildade do Bom Pastor, se continue colaborando no projeto criador do Pai, assumindo, cada agente da Pastoral, a importante função na formação de um mundo consciente, comprometido com a verdade por princípios éticos, com atitudes de uma prática cristã e pastoral efetiva.

Cláudio Geraldo da Silva
Trabalho apresentado à PUC/SP - SEPAC.

REFERÊNCIA

PUNTEL, Joana T.; CORAZZA, Helena. Pastoral da comunicação: Diálogo entre fé e cultura. São Paulo: Paulinas, 2007. (Coleção Dinamizando a comunicação)

O mundo evoluiu do ponto de vista filosófico, científico, tecnológico e religioso?

Cinco séculos antes de Cristo, Heráclito de Éfeso, no uso de sua célebre fórmula “tudo flui”, já dizia que a única coisa que permanece é a mudança. Vinte e cinco séculos depois, seu paradigma de mundo está em pleno vigor, justificando as contantes inovações em todos os campos da sociedade.
Falar de evolução supõe falar de modelos. As referências evolução e involução estão contantemente em diálogo. Na filosofia, por exemplo, há quem diga que evoluiu até chegar a Aristóteles, no século III a.C., havendo a partir de Platão e Aristóteles apenas comentadores de filosofia. No entanto, o pensamento filósofico teve grandes contribuições, tanto no pensamento cristão medieval, quanto nas linhas racionalistas e empiristas modernas, chegando às diversas discussões fenomenológicas e existenciais da atualidade.
As ciências, que tiveram campo aberto com as aventuras científicas de muitos inquiridos queimados e principalmente com o fim da inquisição, representam não só um avanço em si, mas aliam-se também aos avanços da religião, que se tornou tolerante quanto à pesquisa e descobertas científicas afirmadas. Cientistas e crentes dialogam com maturidade as diversas questões científicas relacionadas à vida humana permitindo que a ciência use dos valores éticos em vista de defender e preservar a vida, assim como que o crente tenha uma convicção baseada em dados racionais de que a fé que professa é verdadeira e útil à sua existência.
As tecnologias também sinalizam a evolução dos tempos. Lembrando Marshall McLuhan, os homem faz dos aparatos tecnológicos extensões de si próprio. Ou seja, pelos recursos metereológicos, o homem que não é capaz de avistar ao longe as chuvas que chegaqrão, as prevê; pelos astrológicos, conhece planetas e astros aos quais não pode ir; pelos eletrodomésticos, maximiza as atividades da própria casa e assim por diante.
O caso é que o homem é mesmo capaz de criar e de adaptar-se à sua criação. Aliás, uns criam e outros atualizam os objetos criados – recriação – de modo a toda a sociedade beneficiar-se direta ou indiretamente. O pensamento filosófico, o diálogo científico-religioso e as tecnologias ilustram o eterno devir clássico, traduzido nos dias atuais.

Cláudio Geraldo da Silva
Trabalho apresentado à disciplina Filosofia da Ciência - professor Geraldo Carvalho. SDNSR

Como nasce a moral

Segundo Salvador Nogueira, em seu artigo publicado na revista Galileu, novos estudos, desenvolvidos não apenas a partir de reflexões filosóficas sobre o homem, mas também de análises científicas, afirmam a hipótese de a ética, principalmente sob o ângulo da justiça e da compaixão, ser nata ao ser humano, fruto da seleção natural e da evolução da espécie.
Além disso, segundo o artigo, esses indícios éticos não são atributos exclusivamente humanos. O relato de casos como o dos chimpanzés e dos bonobos, nos quais os animais também reagem moralmente a partir de situações simuladas, contrariam as aparências do senso comum quanto ao desenvolvimento das espécies num meio competitivo e agressivo do mundo animal, que teoricamente impossibilitaria tal afirmação. No entanto, humanos e demais animais estão de acordo quanto à tomada de atitudes justas em defesa do semelhante.
Na expressão do autor o ser humano parece já vir de fábrica com um dispositivo pra distinguir certo e errado, ressalvando que tal capacidade não impede a tomada de atitudes erradas. O jogo de interesses, articulado pela inteligência humana, leva o indivíduo – e, às vezes, também um grupo deles – a agirem contra certos princípios que naturalmente são certos. O caso dos psicopatas, porém, tem sido estudado e descobertas apontam que algumas de suas atitudes podem ter origem em problemas de ordem biológica, como na amígdala e no córtex frontal. Assim, atitudes que fogem à ética podem ser tanto consequências de outras características inatas ao homem, como a competitividade e a agressividade, quanto frutos de psicopatias.
Diante dos argumentos apresentados no artigo, a incidência da educação e da cultura sobre a formação do caráter moral e ético do indivíduo tem seu papel bastante minimizado. Lembrando da concepção de ética nos diversos momentos da história, Olinto Pegoraro diz que na Antiguidade vigorava uma ética regida por princípios cósmicos, na Idade Média, por princípios divinos e na Modernidade, por princípios da liberdade autolegisladora. O que há de comum entre as três concepções é a interiorização da ética que acontece sempre na consciência humana, acolhendo a lei natural e cósmica, acatando com fé a lei divina e cumprindo a lei geral que ela mesma gerou.
De tal modo, ao sustentar o caráter natural da ética, mesmo que sob pontos científicos, o autor afirma pensamentos como o de Rousseau, no Emílio, quando diz que o homem nasce bom, mas o meio o corrompe. Ou como o de Hobbes, no Leviatã, para quem o homem é seu próprio lobo. No entanto, não contraria propriamente ideias conforme as quais a ética é determinada, ao menos em parte, pelo conjunto sócio-cultural. Isso porque o ser humano, que evoluiu juntamente com o mundo, foi capaz de adaptar-se aos padrões morais que ele mesmo criou e instituiu como certos, nos diversos momentos da sua existência.

Cláudio Geraldo da Silva
Trabalho apresentado à Ética I. Prof. Edmar. SDNSR.

Reflexão acerca do Conceito Indústria Cultural de Adorno e Horkheimer

Diante da percepção de que o homem é um ser de cultura, ou seja, de que ele está, mesmo que de modo inconsciente, imerso numa determinada cultura que o caracteriza e estabelece com ele uma relação dialética, parece oportuno uma reflexão acerca do conceito de Indústria Cultural elaborado por Adorno e Horkheimer.
Em primeira instância, dela se poderia dizer como toda a representação artística que passasse essencialmente por algum aparato de cunho tecnológico. Nela então se encaixaria os meios impressos de comunicação, como jornal, revistas, cartazes, folhetins e livros; os meios audiofônicos, tais como o rádio e os CD’s; ainda os meios audiovisuais, como as produções de televisão, de cinema e as reproduções em DVD’s. Além desses meios, a própria internet, que é relativamente recente, tem reconhecido o seu lugar, juntamente com as novas tecnologias em três dimensões.
No entanto, o reconhecimento desses meios como partes da Indústria Cultural não abarca nem sequer de longe a sua dimensão tal como seus idealizadores a conceberam, nem muito menos nas reais e atuais implicações que ela exerce sobre a sociedade. Na observação de seu impacto, na forma como os leitores, espectadores, telespectadores, ouvintes, internautas, enfim, consumidores, notar-se-á que tal impacto está intimamente presente, e de modo direto, na vida social humana, sob a qual traça, maldosamente, linhas de influência.
Assim, este conceito aparece como parte da teoria crítica dos integrantes do Instituto para a Pesquisa Social, de Frankfurt, trazendo ideias de algum modo marxistas e freudianas. Essas duas linhas de pensamento presentes nesse conceito justificam a tendência de produzir em vista de um mercado e, consequentemente, do consumo; além disso, justificam o uso de artifícios com apelativos eróticos usados para prender a atenção dos seus clientes.
Esta reflexão, embora superficial, busca explicitar a relação do conceito crítico de Indústria Cultural com algumas das diversas formas de representação artísticas e culturais, achando nelas possíveis razões pelas quais os teóricos de Frankfurt acharam conveniente cunhá-las assim.

REFLEXÃO ACERCA DO CONCEITO “INDÚSTRIA CULTURAL” DE ADORNO E HORKHEIMER

Fundamentalmente a arte deveria expressar a essência do espírito e da cultura humana, deixando assim de ser um mero aparecer, ou seja, não se deixando tornar algo puramente produtivo e muito menos reprodutivo em função de qualquer fim. A obra de arte traz em si traços sentimentais do autor, das suas sensações, tem um caráter mágico e um poder de encantamento na sua recepção. Exprime o inexprimível, aquilo que está na linha dos sonhos, dos planos, do irreal, do utópico. Da sua pessoalidade emissiva surge a coletividade receptiva, sem, no entanto, massificar.
A grande percepção para a conceituação de Indústria Cultural está na negação dessas características muito peculiares à arte. Se antes os escritores faziam artisticamente suas obras, depois copiadas a punho livre pelos dotados da arte da escrita, agora mecanicamente a grande diversidade das obras se reproduz irrefreadamente. Se há séculos Beethoven se consagrou na música erudita, nem sequer é necessário lembrar-se da popularização do jazz americano, citado por Adorno, uma vez que outras expressões musicais, por exemplo o funk, estão muito mais presentes na sociedade hodierna, através dos diversos meios de reprodução. Assim como na música e na literatura, a pintura e o teatro se viram envolvidos pela era tecnológica, fazendo-se mercadorias colocadas à disposição do grande público para o livre consumo. Os produtos de cunho cultural movimentam uma grande linha do comércio e daí, primariamente, a expressão Indústria Cultural.
O termo Indústria Cultural aparece pela primeira vez na obra Dialética do Esclarecimento, publicada em 1947, quando Theodor Adorno (1903-1969) e Max Horkheimer (1895-1973), teóricos da Escola de Frankfurt (nome convencional do Instituto para a Pesquisa Social, de Frankfurt), estavam nos Estados Unidos, refugiados do governo nazista alemão. Na referida obra, um capítulo, de autoria de Adorno, dedica-se exclusivamente ao esboço desse termo. Com a expressão Indústria Cultural pretendia-se substituir a expressão Cultura de Massa, corrente nos Estados Unidos, principalmente a partir do funcionalismo americano. Para o autor, essa segunda expressão induzia ao engodo que satisfazia os interesses dos detentores dos veículos de comunicação de massa. De fato a expressão cultura de massa suscita a ideia de que representa algo surgido espontaneamente das próprias massas enquanto a verdade é que reproduz ideias prontas de seus detentores que, a partir do conhecimento prévio da preferência da massa, deposita verticalmente sobre ela suas vontades.
A relação entre cultura de massa e meios massivos de comunicação ajuda a compreender como o conceito de Indústria Cultural assume a cena do pensamento sócio-filosófico no século XX. Teixeira Coelho (1989) lembra que embora sejam assim tomados, os três termos não constituem sinônimos e nem apresentam seguimento uns aos outros. Segundo ele, para que exista a cultura de massa, tal como é entendida hoje, é necessária a presença dos meios de comunicação em massa, mas a existência dos meios não acarreta necessariamente a existência da cultura de massa. A Indústria Cultural, por sua vez, só irá surgir quando, pelo uso desses meios, elementos forem produzidos e reproduzidos para a massa, influenciando em sua cultura, que ai sim se chamará cultura de massa. Por exemplo: A invenção dos tipos móveis por Gutemberg no século XV, embora representasse o surgimento de um meio de comunicação em massa, não criou cultura de massa, pois a grande maioria da população permaneceu analfabeta diante da bíblia impressa. A Indústria Cultural só surgiu com os primeiros jornais e, finalmente, a cultura de massa surgiu quando nos jornais apareceu o romance de folhetim.
Assim, Selligmann-Silva (2003) afirma que a Indústria Cultural reproduz a pseudoindividuação dos integrantes da massa. Segundo ele, em toda arte existe a tendência a apresentar uma reconciliação entre o indivíduo e o mundo, o particular e o universal. O estilo dessa arte é quem encarna essa tendência, enquanto instituidor de unidade entre obras. Adorno, porém, nota que a grande arte, de antes e de agora, mantém relação de tensão com o estilo. Só pelo estilo pode-se apresentar o sofrimento histórico; mas apenas se distanciando dele, criando discrepâncias e dissonâncias, o indivíduo ainda pode se manifestar como ser autônomo que não se limita apenas à imitação. No entanto, Siligmann-Silva (2003) quer enfatizar que na arte presente na Indústria Cultural acontece o contrário; nela imperam a seriação e a imitação. Desse modo a Indústria Cultural assume uma função de integração social, através da submissão cega do receptor, gerando indivíduos submissos e conformados, sem autonomia ou capacidade de reflexão e crítica.
É nesse sentido que a crítica de Adorno e Horkheimer se plenifica. A Indústria Cultural é então uma grande empresa de manipulação e condicionamento que não permite efeito retroativo. A cultura que se pretende democrática ou democratizada na verdade não o é, de modo algum, e os novos empresários da cultura, assistidos por especialistas em marketing, distribuem, como diz Huismam (2004), migalhas da cultura burguesa tradicional, que resulta numa gigantesca mistificação das massas.
Reale (2005) acrescenta que é com a mídia que o poder impõe valores e modelos de comportamento, cria necessidades e estabelece a linguagem. E esses valores, necessidades, comportamentos e linguagens são uniformes porque devem alcançar a todos; sendo assim amorfos, assépticos, não emancipam, nem estimulam a criatividade, pelo contrário, bloqueiam-na, porque sua função é acostumar seus receptores a receber passivamente as mensagens. Nota-se que desse modo a Indústria Cultural não vincula propriamente uma ideologia, mas é em si, sua própria ideologia, na qual induz a aceitação dos fins estabelecidos por outros, isto é, pelo sistema. “Toda ligação lógica que pressuponha um esforço intelectual é escrupulosamente evitada” (Adorno, 2006, p. 113).
Para Adorno e Horkheimer da mesma maneira que o indivíduo na massa se mistifica, pela Indústria Cultural também a arte se perde no todo:
O efeito harmônico isolado havia obliterado, na música, a consciência do todo formal; a cor particular na pintura, a composição pictórica; a penetração psicológica do romance, a arquitetura. A tudo isso deu fim a Indústria Cultural mediante a totalidade. Ela atinge igualmente o todo e a parte (ADORNO, 2006, p. 104).

Numa perspectiva marxista, Adorno e Horkheimer analisam a produção industrial dos bens culturais como movimento global de produção da cultura como mercadoria. Os produtos culturais, os filmes, os programas radiofônicos, as revistas ilustram a mesma racionalidade técnica, o mesmo esquema de organização e de planejamento administrativo que a fabricação de automóveis em série ou os projetos de urbanismo. Na concepção de Adorno, cada setor da produção é uniformizado e todos o são em relação aos outros. A civilização contemporânea confere a tudo um ar de semelhança. A Indústria Cultural fornece por toda a parte bens padronizados para satisfazer às numerosas demandas, identificadas como distinções às quais os padrões da produção devem responder. Por intermédio de um modo industrial de produção, obtém-se uma cultura de massa feita de uma série de objetos que trazem de maneira bem manifesta a marca da Indústria Cultural: serialização-padronização-divisão do trabalho. Essa situação não é o resultado de uma lei de evolução da tecnologia enquanto tal, mas de sua função na economia atual.
De fato, a Indústria Cultural fixa de maneira exemplar a derrocada da cultura, sua queda na mercadoria. A transformação do ato cultural em valor suprime sua função crítica e nele dissolve os traços de uma experiência autêntica. A produção industrial sela a degradação do papel filosófico-existencial da cultura. Ao analisar os meios, Adorno sentencia afirmando que, “democrático, o rádio transforma a todos igualmente em ouvintes, para entregá-los autoritariamente aos programas, iguais uns aos outros, das diferentes estações” (2006, p.100), tornando os indivíduos em completos objetos dessa indústria.
Outro ponto importante a ressaltar, segundo Freitas (2008), é o fato claramente expresso por Adorno de que a “Indústria Cultural permanece a indústria da diversão” (Adorno, 2006, p. 112). Como indústria da diversão, a Indústria Cultural tem por principal função produzir a falsa sensação de prazer; tal sensação dá ao seu consumidor a ideia de que o mundo continua como ele é. Assim, vende-se ao consumidor a imagem estereotipada do que é bom, mau, traiçoeiro, feminino, masculino etc. Fica-se acostumado a somente entender o que se encaixa no modelo previamente estabelecido desses estereótipos. É o caso do vídeo-game que incita a buscar o falso prazer em aventuras a partir de percepções esquematizadas previamente. Como afirma o próprio Adorno:
O prazer acaba por se congelar no aborrecimento, porquanto, para continuar a ser um prazer, não deve mais exigir esforço e, por isso, tem de se mover rigorosamente nos trilhos gastos das associações habituais. O espectador não deve ter necessidade de nenhum pensamento próprio, o produto prescreve toda reação: não por sua estrutura temática – que desmorona na medida em que exige o pensamento – mas através de sinais (ADORNO, 2006, p. 113).

Apesar disso, a Indústria Cultural tem o poder de dar às pessoas a sensação de reconhecimento. Na perda de sua própria identidade, o individuo identifica-se nos produtos culturais, assimilando sua forma de vida à forma de vida pré-estabelecida pela mídia, “a semelhança perfeita é a diferença absoluta” (Adorno, 2006, p. 130). O prazer encontrado na Indústria Cultural é o resultado da satisfação que os consumidores culturais têm ao ter sanadas coletivamente suas necessidades pessoais. O indivíduo se projeta nas produções culturais e se realiza ao ver seus “heróis” realizados. Nessa linha mais Freudiana, Seligmann-Silva (2003) lembra que ao invés de permitir a sublimação, ou seja, a passagem da pulsão para o campo estético, a Indústria Cultural apenas reprime. É moralista, na mesma medida que pornográfica. Aquilo que ela nega, o prazer autêntico, ela substitui pela indústria do erotismo.
Contudo, a Indústria Cultural age como instrumento para a alienação da massa, inibindo sua consciência e instaurando o poder da mecanização sobre o homem. O homem moderno está tão dependente das máquinas que não lhe basta lidar com elas apenas no trabalho, fazendo agora da sua casa extensão de sua profissão. A ideologia da Indústria Cultural inculcou na massa a necessidade de acomodar-se na facilidade mecânica e eximir-se de qualquer atividade física ou mental; isso desde o uso imprescindível da calculadora até a impossibilidade de uma caminhada até a padaria. Com essa consciência infundida nos seus receptores, a cada dia a Indústria Cultural pode atraí-lo mais vorazmente ao seu fraudulento comércio movido a apelativas propagandas, como lembrava o próprio Adorno ao dizer que “a publicidade é seu elixir da vida” (1006, p. 134).
As necessidades dos consumidores, que inicialmente a Indústria Cultural parece conhecer e responder com eficiência, descobrem-se tardiamente muito mais geradas pela própria Indústria do que conhecida e respondida por ela. Impondo necessidades ao consumidor, a Indústria Cultural organiza-se para que ele compreenda sua condição de mero consumidor, ou seja, saiba-se tão somente objeto dessa Indústria. A dominação natural ideológica se instaurará quando o consumidor estiver, de fato, enquadrado nos moldes do sistema que o engloba, que mesmo, como diz Adorno (2006, p. 115), logrando continuamente seus receptores não cessa de fazer promessas tentadoras.
Os produtos culturais que não somente chegam às casas diariamente pelos seus meios massivos de comunicação, mas também lotam as vitrines de shopping centers, são oferecidos via catálogos, programas de porta-a-porta, além de tantas outras formas insistentes estão como que num bombardeio na sociedade. Em 1947, quando Adorno e Horkheimer cunharam criticamente o termo Indústria Cultural, isso não era sequer um terço do existente hoje, embora ideologicamente os princípios permaneçam. Mas vendo isso por um prisma bem característico da própria Indústria Cultural, parece que a sociedade alcançou o auge da democratização da arte, da cultura e da informação. A cada dia se recebe uma carga de informações tão grande que o cérebro humano nem sequer é capaz de processá-las. Há à disposição no mercado, e às vezes nem só à venda, mas também disponível para downloads, uma infinidade de músicas, vídeos, textos, jogos, imagens e tantas coisas mais. Isso sem falar nas constantes propagandas que chegam por todos esses meios e induzem à compra, mesmo que desnecessária.
Em conformidade com a onda de consumismo na qual a sociedade se insere, pode-se constatar que pela, e essencialmente na, Indústria Cultural tudo se transforma em artigo de consumo, e que no mercado a arte, a música, o cinema, o rádio, tudo pode ser comprado como uma mercadoria, transformando a cultura em algo negativo. Para Adorno, a Indústria Cultural não é democrática, ela se submeteu a dominação da técnica que é usada pelos meios de comunicação de forma original e criativa, de modo a impedir o homem de pensar de forma crítica, de imaginar, adestrando consciências, que fazem com que o que é transformado para efeitos comerciais sejam convertidos como um entretenimento para todos.

Considerações finais

A Indústria Cultural aparece então como uma crítica de seus autores ao sistema de comunicação vigente, principalmente nos Estados Unidos, no qual os poderosos usavam dos meios para colocarem verticalmente suas vontades sobre as massas que se sentindo satisfeitas com a vasta uniformidade cultural ao seu redor, não se via alienada de suas próprias vontades, interesses e necessidades.
Assim, a dialética entre indivíduo e sociedade percebe-se afetada. Isso se evidencia quando qualquer das partes deixa de contribuir com aquilo que deveria, ou quando permite que alguém o faça em seu lugar. Quando o indivíduo se esquiva de seu papel consciente na sociedade, não apenas se omite naquilo que lhe próprio, como também deixa de, com sua influência, colaborar para o aprimoramento do fluxo cultural de seu povo. Sociedade e indivíduo podem caminhar juntos, mesmo que aja sobre ambos um grande sistema que insista em imperar. Consciência é de construção própria, acrescida de características que também são próprias às pessoas próximas, quer dizer, consciência cultural.
O debate central a esse respeito parece então estar sempre ao redor de questões de ética. Os produtos culturais em si não são bons nem ruins. São simplesmente representações de alguma forma de expressão, seja artística, cultural ou intelectual. O eixo de discussão é o que fazer com a Indústria Cultural, ou talvez restringindo mais, o que fazer com essa vasta gama de produtos fornecidos por essa Indústria. O consenso mais iminente é que se faz necessária uma renovação, se não do sistema em si, mas da própria sociedade. Questões como: de que modo preparar melhor as pessoas para que o contato com tais produções não os aliene? Ou: Como criar condições para que as expressões mais populares da cultura também encontrem espaço na mídia? E ainda: Será possível pensar numa mídia alternativa?
Mesmo diante de tais questões, as possibilidades parecem ainda bastante escassas. A própria dominação capitalista impede que as camadas populares, de onde verdadeiramente a cultura floresce e frutifica, tenham qualquer autonomia. Sob o poder do capital está o indivíduo e sua personalidade. A sociedade, embora não saiba, se mostra reificada e alienada. Desenvolver a consciência individual pode ajudar a dar crédito verdadeiro à opinião pública, que ai já não será mais produto da ideologia dominante.


Cláudio Geraldo da Silva
Trabalho apresentado à filosofia da Cultura. Prof. Maurício Cruz. SDNSR.

Referências bibliográficas

ADORNO, Theodor; HORKHEIMER, Max. Dialética do esclarecimento. Trad. Guido Antônio de Almeida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2006.
FREITAS, Verlaine. Adorno e a arte contemporânea. 2. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008.
HUISMAN, Denis. Dicionário dos filósofos. São Paulo: Martins Fontes, 2004.
REALE, Giovanni; ANTISERE, Dario. História da Filosofia: do romantismo aos nossos dias. Vol. III. 8. ed. São Paulo: Paulus, 2005.
SELLIGMANN-SILVA, Márcio. Adorno. São Paulo: Publifolha, 2003.
TEIXEIRA COELHO, José Neto. O que Indústria Cultural? 2. ed. São Paulo: Brasiliense, 1989. (Col. primeiros passos).

As teorias da comunicação

O presente trabalho refere-se ao módulo Teorias da Comunicação, do curso de especialização Cultura e meios de comunicação: Uma abordagem teórico-prática, realizado no SEPAC no mês de julho de 2009. Tem por objetivo manifestar, numa síntese, parte do processo de aprendizagem e de busca de aprofundamento naquilo que se estudou no período.
Para tanto, conforme orientação, toma-se como base à primeira parte desse trabalho o livro Teorias da comunicação: da fala a internet, do professor Roberto Elísio dos Santos, do qual se apresentará uma síntese. A segunda parte procura estabelecer uma relação direta entre aquilo que o livro apresenta com o conteúdo das diversas aulas ministradas no decorrer do curso, inclusive no que se refere ao laboratório.
Quanto à síntese do livro, dar-se-á a partir da estrutura elaborada pelo próprio autor. Abordando de início o fenômeno da comunicação, seu desenvolvimento desde a descoberta e organização dos sons como sinais, até o seu alto desenvolvimento na era tecnológica, através dos diversos recursos usados para propagá-la. Pretende-se, no entanto, não abordá-la apenas por assim o fazer, como mera narrativa, mas analisá-la em seu conjunto. A parte dois do livro relaciona e expõe diversos momentos de interpretação e estudo do fenômeno da comunicação, colocado a partir das diversas escolas a ela ligadas. O que também será aqui abordado e refletido.
Já para o segundo momento do trabalho, objetiva-se colocar pontos da exposição dos professores diante do que é trabalhado no livro, assim como levantar colocações de outros autores da área e, ora usá-los para afirmar, ora para questionar o autor, no intuito de perceber, através de um diálogo de ideias, as possibilidades diante da questão da comunicação, das diversas formas como ela é colocada.
O que aqui será colocado a critério de considerações finais, são, de fato, considerações. Trazem muito mais impressões que certezas. Porém, nelas serão pontuadas observações de cunho pessoal, da forma como o fenômeno, o estudo e a aplicação da comunicação parecem soar na sociedade hoje e como isso tem influenciado na formação da consciência pessoal, político e social das pessoas.
Assim, o trabalho que segue é fruto de observações, anotações, leitura, reflexão, questionamentos e, por último, de aprendizado real, sendo também ele material para tal conquista. Apresenta-se, então, um esboço organizado daquilo que marcou o primeiro módulo, seja na sala de aulas, seja em sua extensão nos estudos posteriores.
Capítulo I
AS TEORIAS DA COMUNICAÇÃO: DA FALA À INTERNET

Em seu conjunto, o livro apresenta o fenômeno da comunicação dentro de vários aspectos que o marca. O autor estabelece um percurso da história humana, sequenciando o homem que progride na ânsia de se comunicar melhor, organizando-se e tornando seu ato comunicativo mais eficiente.
Sua linguagem simples faz daquilo que é uma pesquisa científica um bom método de estudo e um impactante convite à reflexão acerca desse fenômeno, inclusive pode-se afirmar que o conteúdo em si, já traz boas pistas para uma reflexão, já que o autor mesmo a faz em diversos momentos.
Na introdução à obra, Santos (2003) ressalta a amplitude da comunicação, não a restringindo apenas à troca de informações. Com isso delineia todo o processo comunicacional, desde a criação de sinais e meios até a sua aceitação e incorporação cultural. Além da observação dos interesses a que esse processo serve e da percepção das ideologias nele inseridas, nota-se ainda o feito social que realiza, através das relações horizontais, no nível interpessoal e também das verticais, vindas dos meios de comunicação de massa, das infomídias e, em geral, dos meios frutos do avanço tecnológico.
Evidentemente sobre algo de tamanha intensidade não faltam reflexões e estudos. Muitos são os nomes e grupos de sociólogos, filósofos e pesquisadores de diversas áreas que se enveredaram por esse caminho e chegaram a constatações diversas acerca desse fenômeno, tendo cada um algo a apresentar que ajude a compreendê-lo.

1.1 – Os fenômenos da comunicação

Sendo o ato comunicacional “uma forma de recreação de uma dada realidade captada por aqueles que se comunicam a partir de seus próprios conceitos e preconceitos” (SANTOS, 2003), faz-se necessário à sua compreensão o conhecimento de seu processo evolutivo, de como e por que razão tal processo se desenvolveu nos diferentes grupos e meios.
Segundo o autor a Idade da Fala e da Linguagem iniciou-se a mais ou menos cinquenta e cinco mil anos, através do controle do aparelho fonador humano colocado na emissão de sons organizados. Depois as convenções de símbolos e sinais, como as pinturas rupestres, começaram a alimentar o que, por volta de cinco mil anos atrás, seria a Era da Escrita, iniciada pelos chineses, maias, sumérios e egípcios. Mais tarde os sumérios também organizariam o sistema fonético e foi só por volta de 700 a.C. que, na Europa Central, se iniciou a escrita alfabética.
O ato comunicacional já desde o seu desenvolvimento veio se colocando sob as formas verbal e não verbal e orientando-se a partir da finalidade, podendo ser subjetiva, interpessoal ou massiva, estando sempre presentes os interlocutores, a mensagem, os meios e o contexto.
A eficácia da troca de informações depende da reciprocidade de conhecimento dos sinais pelas partes envolvidas. A linguagem, na sua organização dos códigos e seu conjunto de signos comuns a um dado grupo, responde a isso. Tais signos são constituídos pelo objeto representado (referente), sua representação, ou seja, o significante, por meio da fala, escrita, gestos ou imagem (nesse caso diz-se ícone) e pelo significado que lhe é dado de modo aleatório. Relacionam-se ainda os símbolos, que representam ideias, noções abstratas. A compreensão final do signo ainda depende de seu sentido ser denotativo ou conotativo. No primeiro, compreende-se tal como ele é, já no segundo, novos significados podem ser associados.
O autor atribui ao filósofo suíço Saussure o surgimento da linguística moderna, para quem a língua é um conjunto de signos, utilizados e transformados pela fala. No entanto, foi o cientista inglês Pierce que desenvolveu a semiótica, ou ciência dos signos, com função de classificar e descrever os signos, não importando tanto seu significado, mas sim a interpretação que deles se podem fazer.
A linguagem exerce importante papel na comunicação humana. Transmitem, além da mensagem, muitas características do emissor, do receptor e dela própria. Apresenta-se carregada de ideologias e, muitas vezes, é usada na tentativa de convencimento, que os gregos já chamavam de retórica. Na análise disso, a linguística, a semiologia e a semiótica são importantes, principalmente no estudo do conteúdo das mensagens transmitidas.
Contudo, a linguagem não verbal, ou paralinguística, também se torna alvo de estudos na cinésica e na proxêmica, perante o seu papel no ato comunicacional. Referem-se tanto aos gestos, as posições e movimentos corporais como ao tom de voz. Esses recursos estão condicionados a fatores biofísicos e psicológicos (sexo ou idade), ambientais, sociais, educacionais, culturais e podem afirmar ou até repetir a informação, como podem também contradizê-la, exigindo, assim, domínio do emissor não apenas do modo como se expõe, mas também da forma como seus interlocutores a receberão.
A comunicação pictórica, ou seja, o uso de representações figuradas e relacionadas com o objeto representado, de longe se faz presente no desenvolvimento da comunicação. Desde as pinturas nas cavernas até os recursos da computação gráfica as sociedades usaram da imagem para transmitir mensagens e cultura. Estão presentes nas figuras ilustrativas, na televisão, nas telas, nas ruas e muitas vezes carregam símbolos e ideologias que, embora comuns, remetem a significados diversos. Da imagem, estudos já levantaram muitos componentes, como a presença do ponto, linha, tom, forma e cor, sua estaticidade e dinamicidade e as variações de imagem, que podem ser pura, imagem de imagens, imagem de não imagens e não imagem de imagens.
Vistas essas diversas formas presentes na comunicação incessante do homem, é notória também a presença dos meios massivos de produção e veiculação de comunicação de cultura, informação e lazer. Visam lucro e para isso precisam prender a atenção dos receptores, que buscam nesses meios as mais diversas informações.
Tais meios iniciaram-se no ocidente com a invenção da imprensa de Gutenberg no século XV, possibilitando a impressão de livros, como a bíblia em alemão de Lutero e dos jornais. No sec. XIX a invenção do telégrafo, telefone, fotografia, cinema, gramofone e do rádio marcaram também esse avanço dos meios. A televisão surgiu no século XX, conjugando elementos de vários outros meios, tornando-se então a síntese deles e é ainda hoje um dos meios mais comuns e importantes de comunicação de massa.
As transformações trazidas pela tecnologia foram fazendo a comunicação cada vez mais rápida e eficiente. As mídias digitais intensificaram as trocas de informações entre pessoas, empresas e países. “Hoje, as mensagens são veiculadas em maior quantidade, com mais rapidez e contemplam parcelas cada vez mais amplas de receptores” (Santos, 2003); esse processo rompe as fronteiras e mundializa a comunicação e consequentemente a cultura própria de algum povo. No entanto, a possibilidade destas mesmas mídias em dimensão local valoriza a cultura regional e a identidade específica desse grupo. Mesmo assim essas mídias são necessárias a sociedade, na medida em que esta carece de informações e as quer em quantidade e velocidade satisfatórias, independendo dos danos que possam causar.
Dessa industrialização da cultura originou uma série de pensamentos que zelavam pela tradição cultural e apontavam nos meios massivos defeitos e ameaças, principalmente pela ideologia dominante no sistema capitalista imposta através de sua verticalidade. Outros a viam como a democratização da cultura, sendo possibilidades de acesso a informações e bens culturais diversos. Surge aí a teoria da informação, objetivando conhecer e otimizar o custo do processo comunicacional.
1.2 – As escolas teóricas

No desenvolvimento das ciências sociais, vários cientistas sociais se voltaram para a questão da comunicação, observando-a a partir de seu impacto cultural e de seu uso na integração social. Tais estudos, surgidos na Europa, eram de ordem positivista ou marxista, procurando explicar tudo à luz da ciência ou pretendendo mudar a estrutura de classes, respectivamente.
No início do século XX, surge a teoria funcionalista a partir dos teóricos da Escola de Chicago. Pelo paradigma de Lasswell, alguns dos teóricos funcionalistas explicam o processo da comunicação que engloba emissor, mensagem, meio, receptor e o seu fim. Justificam ainda a influência exercida pelo meio sobre a sociedade, além da sua função na manutenção da ordem social. Porém, outros afirmam que tal paradigma justifica o uso autoritário dos meios. Propõem então o paradigma de Lazarsfeld, que estuda o processo a partir de seu contexto.
Opostos aos funcionalistas colocam-se os frankfurtianos, principalmente Horkheimer, Adorno, Benjamim e Marcuse. Os dois primeiros numa crítica à produção cultural padronizada e em série cunham o termo indústria cultural, designando a maneira de apropriação da cultura pelo capitalismo. Benjamim considerava que a aura, ou seja, a legitimidade da obra se perderia ao ser reproduzida. Marcuse afirmava que o ser humano tendia a unidimensionalidade, a partir da supressão do princípio do prazer. Mais tarde, Habermas formulou a teoria da competência comunicativa, em que o tecnicismo faz público aquilo que era privado.
Em oposição tanto aos funcionalistas como aos frankfurtianos estão os teóricos da Escola Sociológica Europeia, como Roland Barthes, Edgar Morin, Jean Baudrillard, Julia Kristeva, Christian Metz, Umberto Eco, entre outros. Eco pensava que a fenômeno da comunicação é legítimo, pertencente a um momento histórico e sua análise deve levar em conta a linguagem usada, a recepção e o contexto cultural. Para Morin, a cultura de massa tem caráter universal, devendo ser olhada a partir da totalidade e da autocrítica. Relacionam-se ainda Saussure e a semiologia, além de Levi-Strauss e o estruturalismo.
Marshall McLuhan dedicou-se ao estudo dos meios, tendo alguns pensamentos e conceitos próprios, alguns contestados por outros teóricos. Segundo ele, os meios são extensões dos sentidos humanos e têm sua eficiência tanto melhor, quanto maior forem os sentidos usados, sendo a fala a mais eficaz. O conceito Galáxia de Gutenberg refere-se ao fenômeno de que a partir da imprensa o homem fixou-se no uso da visão. Aldeia global, outro conceito de McLuhan, é o mundo. Nele, “a mesma experiência comunicativa é compartilhada por diferentes culturas” (Santos 2003), são milhões de pessoas compartilhando a mesma experiência.
Outros pontos de vista foram colocados pela chamada Nova Esquerda, principalmente pelo filósofo alemão Enzensberger. Para ele os meios podem agir na consciência da massa, mobilizando-a a algum fim, o que ele chama de indústria da consciência. Já o filósofo francês Althusser trata dos aparelhos ideológicos, principalmente o do estado, que reforçam a produção das ideologias veiculadas.
A partir dos anos 1970, em decorrência de fatores políticos, sociais e econômicos, a sociedade configura-se ao pós-moderno. As implicações culturais dessa mudança de padrões foram estudadas pelos teóricos da Escola Progressista-Evolucionista. Para eles a cultura se democratiza pela educação, o que vinha acontecendo devido à emergência da sociedade intelectualizada. A isso, Alvin Toffler chamou de terceira onda, que caracteriza, pela interação das partes, a desmassificação dos meios de comunicação de massa.
Nessa sociedade pós-moderna, principalmente nos países desenvolvidos, o tempo real e a semelhança à vida real são marcantes na comunicação. Esta se caracteriza pela utilização de recursos de alta tecnologia, assim como pela alta velocidade na transmissão das informações e ainda pelo consumismo e hedonismo. As ideologias estão intrínsecas, mas revelam um grande vazio de conhecimentos passados. No entanto, isso ainda é bastante informe nos países subdesenvolvidos, nos quais muitas vezes o fenômeno não é estudado.
No caso da América Latina, o estudo do fenômeno da comunicação apareceu a partir da década de 1950 numa perspectiva funcionalista. O Ciespal (Centro Internacional de Estudios Superiores de Periodismo para a América Latina) foi criado em 1959 e seus estudos visavam a melhoria das condições de vida do povo e depois a comunicação popular. Depois de 1970, alguns teóricos de esquerda (muitos membros do Ceren – Centro de Estudos da Realidade Nacional) começaram a observar as ideologias, a partir dos conceitos imperialismo cultural (imposição dos países ricos de produtos culturais) e hegemonia.
Na década de 1980, a tentativa de democratizar a informação e dialogizar o processo repercutiu na criação dos meios alternativos que veiculavam na “contramão” a cultura popular. Os Estudos Culturais ingleses foram retomados nas décadas de 1980 e 1990 por Martin-Barbero e Garcia Cancline. Para o primeiro, os meios homogeneízam os comportamentos e afastam as pessoas das ruas, isolando-as em casa e criam nos meios de comunicação sua identidade. Já para o segundo, os meios criam culturas híbridas (populares, massivas e de consumo), como é o hip-hop.

Capítulo II
TEORIAS DA COMUNICAÇÃO: RELAÇÃO LIVRO – SALA DE AULA

Em artigo publicado na Folha de São Paulo, Emílio Odebrecht, citado pelo professor Mauro Wilton , considera a definição mais agradável de comunicação aquela que a concebe como processo de influenciar e ser influenciado na busca do que é certo. Afirmando Santos (2003) quando diz que se peca ao concebê-la apenas como processo de transmissão de informações, uma vez que abrange toda uma sistematização de relações. Isso se evidencia nas palavras do próprio professor: “Comunicação é fruto de uma alteridade entre o ‘eu’ e o ‘outro’”.
Os limites e possibilidades abordados por Mauro Wilton expuseram a linearidade temporal em que a comunicação se dá, principalmente nas mudanças de época e nas formas características de cada momento histórico. Contextualizando o processo comunicativo desde a presença do ato comunicacional no ser humano como necessidade vital, seu desenvolvimento anatômico e biológico, até o momento em que esse processo começa ser objeto de estudos e, não só isso, a forma como esses estudos se inserem no campo acadêmico e social, desenvolvendo as diversas teorias, que partem do impacto que a comunicação causa na sociedade.
A teoria funcionalista, também abordada pelo professor Mauro Wilton, parte da noção de função. Mattelart e Mattelart (2000) desenvolvem esse assunto a partir da pergunta: “Quem diz o quê por que canal e com que efeito?”. Em Sousa (2003), a função relaciona-se à atuação de uma determinada instituição na sociedade e sua importância na manutenção dela. A “agulha hipodérmica” relaciona a emissão à recepção no uso dos meios para o fim, que é a resposta ao estímulo provocado com meios persuasivos, mesmo que para isso o indivíduo se dilua no grupo que media sua identidade. A mídia é, no final, a gratificação à sociedade por aquilo que ela espera. Sendo, portanto, o modo de compreender a comunicação no seu processo de consumo.
A professora Sílvia Borelli , em aula sobre os frankfurtianos, estabeleceu um paralelo entre funcionalismo e teoria crítica semelhante ao feito por Santos (2003). Para ambos, embora o Instituto para a pesquisa social tenha sido fundado em 1923, na cidade alemã Frankfurt, a teoria crítica só se desenvolveu como tal a partir do contato dos teóricos dessa escola com a sociedade de massa (funcionalista) nos Estados Unidos. A vulgarização da arte e da cultura pela produção em série evidencia a oposição entre razão e intuição, a arte se distancia do seu autor e, assim, distorce a realidade que lhe é própria.
Apesar de Santos (2003) os ter generalizado como marxistas, é conveniente, como lembrou professora Sílvia, perguntar: de que marxismo se está falando? Para os críticos dessa escola, diferentemente de Marx que fala em classe dominante, há ideologias de classe. Essas produzem e impõem-se sobre os receptores do processo funcionalista. A questão da indústria cultural firma-se nesse aspecto, para Adorno, um dos críticos principais, ideologia é o processo responsável pela própria consciência social, portanto, não é produto.
Nota-se que tanto o funcionalismo quanto a teoria crítica constatam a industrialização da cultura criada pelos meios de comunicação. A divergência existencial está no que Polistichuk e Trinta (2003) chamam de proposição metafísica presente nos frankfurtianos que pretendiam transcender, pela filosofia, a pesquisa sociológica, enquanto os funcionalistas mantêm-se firmes na continuidade do sistema.
Embora Santos (2003) o tenha citado entre membros da Escola Sociológica Alemã, sem dar-lhe muito espaço, Sílvia Borelli dedicou uma manhã a Edgar Morin, explorando a questão da imagem e do imaginário que, estando muito além da mera representação de figuras e símbolos, sintetiza a comunicação humana que se realiza com o “duplo”. Para Morin, as dimensões real e imaginária estão muito próximas, sendo às vezes o imaginário mais real que o real.
Ir. Joana Puntel , abordando McLuhan, expôs a afirmação desse pensador sobre os meios. Segundo Polistichuk e Trinta (2003), a tese central de McLuhan é o determinismo tecnológico, ou seja, vê os meios de comunicação como um sistema complexo que envolve sujeitos, instrumentos, organizações e articulações de mídia que opera em todos os níveis da organização social, sobre a qual, instituindo novos hábitos de percepção, contribui decisivamente para uma nova configuração. No entanto, segundo Ir. Joana, esta é também uma das ideias de McLuhan mais criticadas, pois diante dessa supervalorização dos meios há praticamente a anulação das pessoas, como se apresentou no filme Simone em que um computador produz uma personagem fictícia de cinema.
Os Cultural Studies, na Inglaterra, abordados por Sílvia Borelli e os estudos culturais na América latina, trabalhados com o professor Mauro Wilton, foram superficialmente mencionados na obra base deste trabalho. Na sala de aula, porém, foram bem discutidos. A professora Sílvia explicitou a importância desses estudos no conhecimento da relação entre cultura e comunicação, principalmente a partir de Richard Hoggart que cria o Centre for Contemporany Cultural Studies que, segundo Escosteguy (2001) , dedica-se ao estudo das relações entre a cultura contemporânea e a sociedade. Usou ainda do pensamento de Raymond Willians, também membro do CCCS, que, de acordo com Escosteguy (2001), constrói um histórico do conceito de cultura, culminando na ideia de que a cultura comum pode ser vista como um modo de vida em condições de igualdade de existência com o mundo das artes, literatura e música, o que Sílvia exemplificou com o projeto de universidade aberta e alfabetização de adultos, por eles idealizado, bastante diferentes dos projetos assim nomeados no Brasil.
A professora Sílvia faz questão de enfatizar o ângulo do qual se pode compreender o marxismo presente nos Cultural Studies. Segundo ela, enquanto no marxismo original se fala da superioridade da infraestrutura sobre a superestrutura, colocando as materialidades econômicas acima da cultura, nos Cultural Studies o processo se inverte, através de um deslocamento de eixo. O que Gramsci chamou de hegemonia, ou seja, a prevalência de algo sobre o outro, processo de negociação do poder. Outro nome de referência é Stuart Hall, que substituiu Hoggart na direção dos estudos, incentivando várias linhas de pesquisa e projetos coletivos.
Sobre os estudos culturais na América Latina, como já citado, Professor Mauro reforçou motivos pelos quais Barbero considera que o indivíduo crie sua identidade pelos meios de comunicação, a partir de sua inserção no processo emissão-mediação-recepção. Tais razões partem das ideologias transmitidas que levam tanto à crise da solidez, referindo-se à Bauman, para quem todas as relações se liquefazem, quanto à busca pela subjetividade através de uma experiência singular de vida.
A questão não só da semiótica, mas também da semiologia, apresentou-se várias vezes na obra de Santos (2003). No SEPAC, a semiótica, mais especificamente, foi com toda a sua complexidade exposta pela professora Irene Machado , que quis já de início abordar as diferenças entre os dois termos acima citados. Embora se refiram a teoria geral dos signos, Saussure considera a semiologia uma disciplina de estudo da vida dos signos, enquanto Peirce considera a semiótica a ciência geral dos signos em suas relações lógicas. A faixa de estudo da semiótica, professora Irene definiu assim: “Toda e qualquer coisa que organize ou tenda organizar-se sob a forma de uma linguagem, verbal ou não, é objeto de estudo da semiótica”. A afirmação de Santos (2003) de que linguística, semiologia e semiótica são instrumentos valiosos para o estudo da comunicação, principalmente para a análise do conteúdo das mensagens presentes nos meios massivos, parece bastante pertinente, já que, segundo a professora, a linguagem dos meios é decifrada pelos códigos apresentados.
Ligado ao que o autor da obra base deste trabalho chamou comunicação e pós-modernidade, a aula Pós-modernidade e as novas racionalidades técnicas, com a professora Rose Rocha , somou elementos norteadores para a concepção desse processo comunicacional inserido na sociedade pós-moderna, a partir das mudanças de paradigmas estruturais. Segundo ela, o que se chama pós-modernidade é a resposta ao diagnóstico do mal estar da sociedade, que sofre da doença da impermanência, na qual muito se pensa e pouco se faz realmente, até mesmo em decorrência da dinamicidade do tempo e do espaço. A emergência do individualismo e dele, com a revolução tecnocientífica e microeletrônica, emerge a possibilidade de se comunicar cada vez mais à distância, sem a presença do outro. A pós-modernidade, sendo a era dos paradoxos e da velocidade, põe em dúvida a realidade das coisas, dando asas ao imaginário. Nela, pergunta-se pelo sujeito e por seu papel na construção da sociedade.
Numa observação mais de cunho eclesiológico, mas de profunda importância até mesmo por considerar a evolução da Igreja junto ao processo da comunicação, desenvolveu-se a aula de Ir. Joana Puntel, na qual desenvolveu a partir dos documentos da Igreja um percurso trilhado por ela, não só na visão do processo, mas também na orientação para a sua realização. Ir. Joana chamou a atenção para o diálogo entre fé e cultura em vista de uma evangelização dinâmica, justificando assim a passagem da comunicação eclesial junto aos momentos teóricos e históricos da comunicação social. Tal processo, com louvor, culmina no documento de Aparecida que diz: “Têm-se desenvolvido a pastoral da comunicação social, e mais do que nunca a Igreja tem contado com os meios de comunicação para a evangelização da cultura” . Além disso, a afirmação do Papa Bento XVI na carta encíclica Caritas in Veritate, sobre a necessidade de comprometimento dos meios com a verdade, o bem e a fraternidade em vista da promoção da dignidade humana representa a caminhada progressiva que faz a Igreja no rumo de uma pastoral transformadora em oposição àquela pastoral que o próprio Documento de Aparecida chama de pastoral de manutenção.
Quanto à prática laboratorial de rádio, com o professor Anderson Zotesso, numa análise das diversas teorias que sustentaram e, de algum modo, permitem compreender o processo da comunicação, há como pontuar elementos de várias delas, presentes na produção radiofônica.
O efeito massivo do rádio através da reprodução mecânica de músicas e programas depositados nos ouvintes tem carga funcionalista e por vezes parece suscetível à crítica dos frankfurtianos. Olhado a partir da teoria de Umberto Eco, da Escola Sociológica Alemã, o rádio, embora massivo, cede lugar preferencial à mensagem que transmite, essa pode ser conhecida a partir da sua análise estrutural, observação da relação entre seus elementos constituintes na geração do significado, assim, o meio mesmo que massivo pode ser informativo e educativo.
No entanto, se olhado sob a perspectiva de McLuhan, o rádio, como os outros meios, pode supervalorizar o meio e a mensagem tornar-se intrínseca. Ainda pensando com McLuham o uso do rádio como extensão da fala humana ajuda a maximizar o processo. O rádio ainda pode se inserir na ideia de aldeia global, promovendo a criação de tribos de escala planetária.
Além dessas, o rádio é capaz de traduzir-se em muitos pensamentos e análises, no entanto, o que parece importante é conhecer o papel do rádio na sociedade contemporânea e o papel do comunicador radiofônico na interação com a sua recepção através do meio de que usa.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Parafraseando Emílio Odebrecht, talvez seja conveniente dizer que o processo de comunicação se aprimora no conhecimento da influência sofrida e exercida em vista de acertar. Nos primeiros passos da comunicação interpessoal, parece-me que mais importante que se expressar, seja pela fala ainda precária, nos primeiros balbucios, seja pelos gestos sinalizadores, era entender e ser entendido, de modo que houvesse uma clareza no processo.
Da mesma forma que tomando consciência de seu existir no mundo o homem começou a refletir sobre tal aspecto, a sua evolução ao longo de todo esse tempo possibilitou-o, então, não somente a capacidade de expressão, mas principalmente a profunda reflexão que culminou também na tomada de consciência de que seu potencial comunicador era de fundamental importância na construção histórica da sociedade.
Sociedade essa, marcada por momentos de paradigmas de relações diversos. O dado da relação, que embora romantizante apresenta-se também como o desafio da interpessoalidade, aparece como a peça fundamental para a busca humana de conhecer-se enquanto ser de relações. Tomadas sob diversos ângulos, essas relações servem de base ao desenvolvimento das várias teorias da comunicação que são o processo e o produto dessas reflexões sócio-culturais.
A questão cultural, entendida a cultura como toda a produção humana para a satisfação de suas necessidades com capacidade de alavancar o homem no fluxo histórico, é, ao mesmo tempo, causa e efeito dentro do conjunto de relações. Se por um lado, esse até mais amplo, a cultura é o que movimenta a comunicação, que lhe dá sentido, por outro é ela produto dessa comunicação, uma vez que no desenrolar do processo, seu potencial dinâmico permite que sofra mutações e se adapte à realidade, ou até mesmo, crie novas realidades.
Essa temática da comunicação, compreendida dentro da relação cultura e sociedade, perpassa toda a questão presente no livro base, no sentido da observação de como o processo se dá. Aquilo que é de cunho biológico, como o desenvolvimento anatômico dos órgãos para a fala, soma-se ao que é de cunho intelectual, como a invenção e a convenção acerca da escrita, além daquilo que se foi refletindo ao longo de todo esse processo e dessa consciência acerca da origem, da importância e das consequências de tal processo na vida da sociedade.
Com efeito, como várias vezes disse professor Mauro Wilton, não há ideologia nua. A repercussão do processo comunicativo, principalmente a partir da massificação da comunicação e da globalização da cultura, está ligada às várias ideologias que se pretende propagar, de forma que se crie uma sociedade homogeneizada cada vez mais dependente e inconsciente do que há por trás de todo o sistema.
Esta é a era pós-moderna, nela as relações são bastante indefinidas, as identidades oscilam entre polos opostos e as informações chegam a tempo real às casas de onde as pessoas relacionam, mesmo sem ter contato, com a sociedade. Nesse protótipo de sociedade o real e o fictício fundem-se em padrões de aceitação, pelos quais os valores morais e éticos ora se disseminam, ora são denegridos, as famílias se amoldam àquelas que lhes são dadas como exemplo e a educação se sujeita àquilo que os detentores dos meios a permitem oferecer.
Embora os momentos se superem, muitas de suas características perduram ao longo do tempo. Mesmo na pós-modernidade estão presentes ideais funcionalistas que ainda criticamos com olhares frankfurtianos e que tanto como os primeiros, às vezes estamos a serviço da reprodução do sistema, quanto como os segundos, mantemos uma postura crítica e uma alternativa utópica de mudança. O caso é que apesar disso, a cultura continua matéria de indústria e seu sentido artístico primeiro se perde na falta de originalidade com o qual ela se reproduz.
A emergência da cultura pop é um sinal de que mesmo em meio a essa massificação presente na comunicação, embora o pop também use desses meios massivos, ainda pode haver medidas alternativas em que as pessoas das pequenas comunidades possam vivenciar e de algum modo difundir traços culturais que lhe sejam próprios.
Contudo, nota-se que hoje a sociedade é totalmente dependente dos sistemas de informação. Além das mídias tradicionais, as infomídias, principalmente a internet, assumem um papel imprescindível na manutenção da sociedade. Constatar isso pode não significar muito se não nos questionarmos quanto à necessidade de se criar uma consciência crítica acerca dessas mídias. É conveniente que nos perguntemos como nos inserimos nesse sistema e o quanto ele é capaz de nos envolver e de direcionar nossas ações e reflexões, ou pior, se ele é capaz de suprimir nossas reflexões e levar-nos a vivência de um conformismo.
Nisso os diversos pensadores citados no trabalho colaboraram. Inspirados na presença dos meios de comunicação e sua forma de atuação no tempo em que viveram, os pensadores ou escolas reproduziram da forma mais original possível a estrutura interna e a repercussão social da comunicação e da cultura, preocupando-se com a forma como a sociedade a enfrentaria e aceitaria no dia-a-dia.
Por fim, prevalece a ideia de que é importante conhecer o sistema em seu conjunto, não basta aceitar passivamente a forma como ele se impõe, mas é necessário que mesmo não podendo mudá-lo, com ele se aprenda a discernir e, assim conscientemente, escolher.

Cláudio Geraldo da Silva
Trabalho apresentado à PUC-SP/ SEPAC.

REFERÊNCIAS

BENTO XVI. Caritas in Veritate: Sobre o desenvolvimento humano integral na caridade e na verdade. São Paulo: Paulinas, 2009 (coleção A Voz do Papa).
Documento de Aparecida. Texto conclusivo da V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe. 5. ed. Brasília: Edições CNBB, 2005.
ESCOSTEGUY, Ana Carolina. Os estudos culturais. In: HOHLFELDT, Antonio; MARTINO, Luiz; FRANÇA, Vera Veiga. Teorias da comunicação: Conceitos, escolas e tendências. Petrópolis: Vozes, 2001.
MATTELART, Armand e Michèle. História das teorias da comunicação. 3. ed. São Paulo: Edições Loyola, 2000.
POLISTCHUK, Ilana; TRINTA, Aluizio Ramos. Teorias da comunicação: O pensamento e a prática da comunicação social. Rio de Janeiro: Campus, 2003.
SANTOS, Roberto Elísio dos. As teorias da comunicação: da fala a internet. São Paulo: Paulinas, 2003 (Coleção Comunicação-estudos)

A questão da linguagem em nomes e momentos distintos da filosofia

O presente trabalho surge na tentativa de apresentar alguns nomes significativos na história da filosofia, como: Platão, Aristóteles, Habermas e Hegel para, de forma objetiva, expor a importância da filosofia da linguagem que é uma reflexão que coincide com a do ser.
Assim, afirmar que a questão da linguagem não surge como problema de hoje, é também afirmar que ao longo de sua existência, desde o início da articulação do aparelho vocal humano, quando este começou a comunicar-se organizando e dando significado aos sons, até a massiva presença das infomídias hoje, a linguagem assumiu primordial preocupação na tentativa de maximizar as relações interpessoais.
Tal abordagem do tema se dá, portanto, pela importância que a linguagem representa na vida do ser humano, pois é através dela que o homem conhece o universo e se faz conhecer.
A filosofia da linguagem abordada, como veremos, foi modelada por grandes estudiosos. Ao longo da história sua identificação mudou; para os gregos era vista como uma verdade, para a contemporaneidade é vista como instrumento de comunicação.
Mesmo em tempos distintos de sua abordagem, a questão da linguagem perdura como uma preocupação do homem que, é ao mesmo tempo, ser pensante, filosófico e comunicativo, por natureza.

Platão: O nome dos seres

De acordo com Ribeiro (2006), Platão foi o primeiro filósofo a tentar conciliar o natural e o convencional, antes dele essas duas correntes, uma que considera que exista naturalmente a denominação de cada um dos seres, atribuída a Parmênides, e a outra que afirma a convenção de significado aos seres, de origem nos sofistas, opunham-se entre si. A conciliação de Platão chega, pelas duas teses, às mesmas conclusões que levam à busca do conhecimento das coisas, por elas mesmas e não pelos seus nomes.
Para Guimarães (1990), a originalidade de Platão consiste na afirmação de que o significado precede o significante. O significado, enquanto significado mental, é anterior ao significante, pois instala-se num plano privilegiado e dominador: o plano das ideias. Diz ainda que os nomes surgem a partir de um legislador que é, ao mesmo tempo, um nomeador. Pois, ele observa a coisa em si, para chegar a ela. Esse legislador passa a funcionar na filosofia da linguagem como o demiurgo na concepção da criação platônica.
Ao estudar os conceitos de letras e fonemas, Platão inicia o estudo das sílabas, que formam os nomes e os verbos. Apresenta-se aqui a gramática. Platão foi o primeiro a estabelecer a distinção gramatical e a misturar algumas considerações linguísticas e lógicas, lançando as sementes para o pensamento aristotélico.

Aristóteles: Lógica material

Aristóteles desenvolve seu pensamento em extensão, não apenas por sua ânsia de abranger todos os saberes, mas porque, ao contrário de seu mestre, se volta particularmente para as dificuldades que a contradição entre a necessidade de estudar o individual e contingente e o fato de que somente um saber universal pode ser um saber verdadeiro levantam para a explicação do mundo.
A dialética, segundo Aristóteles, assim como a sofística, uma aparência da filosofia, tem um viés estritamente positivo. Em vez dela, deve ser elaborado um instrumento para o saber que mostre sua eficácia em todos os aspectos e não apenas crítico.
Ao pregar tal doutrina (lógica material), Aristóteles completa esse cerco ou abordagem do objeto que fora primitivamente proposto o que tendia, sobretudo, a evitar que ele escapasse pelas amplas brechas dialéticas da definição em uso; o objeto fica, com efeito, aprisionado, em primeiro lugar pela demarcação dos atributos e principalmente pela, desde então clássica, definição pelo gênero próximo e pela diferença específica.
Mas ele fica também aprisionado porque a categoria situa o objeto e o faz entrar numa rede conceitual que vai se aproximando cada vez mais de seus princípios últimos. Essas categorias expressam em grande parte, como é notório, a estrutura gramatical das proposições, mas fazem-no não tanto porque Aristóteles tinha levado em conta a linguagem própria para a sua formação, mas porque desde então a linguagem própria ficou gramaticalmente articulada segundo as categorias aristotélicas.

Hegel: Linguagem do absoluto

De acordo com Cossetin (2009), a filosofia da linguagem em Hegel parte da sua elaboração de um sistema filosófico tomado como necessário a partir da sua recusa a todo Absoluto intuído ou declarado sem uma profunda reflexão.
A ideia daí decorrente é que a possibilidade de inteligibilidade deste Absoluto é correlata à possibilidade de sua exposição. Ou seja, na filosofia hegeliana, a necessidade inerente ao Absoluto, que precisa alcançar sua identidade plena, encontra na linguagem o papel inequívoco de mediadora entre o sensível e o inteligível.
Isso observou Hegel dentro da colocação da linguagem no conhecimento: na Antropologia, pela voz, o homem diferencia-se de seu ser animal; na Psicologia, pelo signo lingüístico, a inteligência ascende ao pensamento onde não mantém mais nenhuma dependência do mundo de objetos e lida apenas com suas próprias determinações; e, na Fenomenologia, a linguagem reverte a crença da consciência no acesso imediato e singularizado ao objeto, conduzindo-a até o Saber Absoluto. O resultado disso é que, na Lógica, a pressuposição lingüística das categorias da qual ela parte e a linguagem finita pela qual ela se expõe, precisam ser superadas devido à incondicionalidade do pensamento puro.
Aparece aqui a dualidade entre pensamento e linguagem: como a linguagem pode exprimir um absoluto, se o pensamento só pode ser realmente absoluto liberando-se dessa linguagem finita, marcada por traços infinitos de diferentes possibilidades? Para Hegel, o pensamento abrange extensões muito maiores que a linguagem pode abarcar.
A filosofia da linguagem em Hegel coloca-se então dividida: de um lado, assumindo uma linguagem finita como necessária ao pleno desenvolvimento e exposição do sistema do pensamento puro e, de outro lado, exigindo apriorismo do pensamento puro, logo, tendo que abandonar esta suposta condicionalidade linguística.

Jürgen Habermas: A Teoria da Ação Comunicativa

Um dos mais importantes filósofos alemães do século XX, Habermas tem a noção de interesse em destaque no seu pensamento. Habermas parte do pressuposto que todo o conhecimento é induzido ou dirigido por interesses.
Segundo Helda, os interesses são estruturados por processos de aprendizagem e compreensão mútua. É neste contexto que Habermas afirma o princípio da racionalidade dos interesses.
Todo o seu pensamento aponta, assim, para uma autorreflexão da espécie humana, cuja história natural vai fazendo conhecer os níveis de racionalidade que a mesma atinge.
Na Teoria de Ação Comunicativa, Habermas defende que no uso da linguagem, presume-se que ela pode ser justificada em quatro níveis de validade, nos quais se encaixando considera não distorcida:
• O que é dito é inteligível, ou seja, a utilização de regras semânticas inteligível pelos outros;
• Que o conteúdo do que é dito é verdadeiro;
• Que o emissor justifica-se por certos direitos sociais ou normas que são invocadas no uso de idioma;
• Que o emissor é sincero no que diz, não tentando enganar o receptor.
Quando uma das regras é violada, ou seja, o locutor está mentindo, então a comunicação está distorcida. Esta teoria de comunicação tem muitas implicações, inclusive uma definição de verdade de caráter universal.
Assim, segundo Ghiraldelli, a filosofia da linguagem em Habermas, parte do pressuposto de que a linguagem, independentemente de ser tomada como inata ou aprendida, é um conjunto de práticas compartilhadas pelos seus usuários. E, de acordo com Huismam, é dentro dessa problematização do conhecimento e do interesse, que Habermas confere à epistemologia das ciências humanas o sentido ampliado de lógica das ciências que não se separa de uma teoria do conhecimento.
Em tudo isso, nota-se em Habermas a continuidade da tradição filosófica de língua alemã, mas reforça a orientação universitária e científica da teoria crítica da filosofia.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

De fato a questão da linguagem marcou diversos nomes e momentos da filosofia. Muitos outros filósofos, além dos aqui usados, poderiam ter essa temática desenvolvida neste trabalho, como Guilherme de Ockam, Saussure, Wittgenstein, Althusser, Bakhtin, Eco e outros.
Nestes usados no trabalho nota-se que a linguagem como característica humana se faz notar por si mesma de forma tão eficaz, que entra em todas as tentativas de determinação da natureza humana, sendo indissociável das questões do homem.
A repercussão desses pensadores muito provavelmente está manifesta nos estudos e trabalhos da semiologia e mesmo da própria semiótica. A questão do nome dos seres, que embora seja convencional a algum padrão pré-estabelecido, impulsiona a pesquisa no sentido de concluir a que critérios tais convenções remetem, qual a relação signo-significado presente nos mais variados nomes e que representação real os signos fazem de seu referente? É o tradicional exemplo da semiologia: Pode a palavra casa, usada como vocábulo, exprimir exatamente aquilo a que faz referência? Trata-se de um casebre ou de um palácio?
As questões de Platão sobre a origem dos nomes e a de Aristóteles sobre a organização lógica deles são tão pertinentes quantos as de Hegel acerca da possibilidade de significação absoluta e a de Habermas quanto à veracidade da informação. Isso porque com o desenvolvimento das ciências muito se foi conhecendo desse fenômeno linguístico-comunicacional e tais questões, embora eternas, evoluíram-se.
O importante talvez seja notar que, mesmo em meio a tudo isso, a linguagem permanece uma questão de estudos e que seu conhecimento colabora em grande escala para o entendimento da sociedade que progride a cada dia, criando novas formas de comunicar-se e promovendo um constante diálogo entre o culto e o informal.


Cláudio Geraldo
Josimar Franco
Apresentado à Filosofia da Linguagem. prof. José Raul dos Santos Oliveira. SDNSR.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


COSSETIN, Vânia Lisa Fischer. O problema da linguagem no sistema hegeliano: O paradoxo do absoluto incondicionado e exprimível. Programa de pós-graduação em filosofia – PUCRS. Porto Alegre, 2007.

______. Vânia Lisa Fischer. A recusa regeliana de todo o absoluto. Disponível em: http://biblioteca.universia.net/html_bura/ficha/params/id/29498897.html, acessado em 25 ago.2009.

GHIRADELLI JR, Paulo. Há um Davidson entre Habermas e Rorty.

GUIMARÃES, Mirna Botelho de Barros. A filosofia da linguagem nos gregos. In Revista Brasileira de Filosofia. São Paulo: Instituto Brasileiro de Filosofia. Vol. 39, 1990. p. 334 – 345.

HELDA. A teoria da ação comunicativa. Disponível em: http://br.answers.yahoo.com/question/index?qid=20070422094209AAIUed3. Acesso em: 25 ago. 2009.

RIBEIRO, André Antônio. A Filosofia da linguagem em Platão. Programa de pós-graduação – PUCRS. Porto Alegre, 2006.