quarta-feira, 16 de junho de 2010


O problema do conhecimento surge em Platão como o processo em que o homem acessa o inteligível. Pode-se perceber que todos os filósofos anteriores, de algum modo, já tinham trabalhado esta dimensão, porém nenhum deles da forma e presteza com que fez Platão.
Vê-se que, ao contrário de Demócrito e seus seguidores, Platão não buscava as verdadeiras essências da forma física, mas sob a influência de Sócrates, buscava a verdade essencial. Para ele, a verdade não poderia ser buscada a partir da teoria atômica apresentada por Demócrito, pois a existência destas coisas materiais não divisíveis, são corruptíveis, variam, mudam, surgem e se vão. Como filósofo, sabia que deveria buscar a verdade plena em algo estável e nas verdadeiras causas, pois a verdade não pode variar. Ele dizia ainda que, se há uma verdade essencial para os homens, essa deve valer para todas as pessoas, portanto, devendo ser buscada em algo superior.
Assim como em Parmênides e em Heráclito a questão do conhecimento relaciona-se com exigências ontológicas, ocorre em Platão. O primeiro, levado pelas exigências do ser, negara qualquer valor ao conhecimento sensível, enquanto o segundo, premido pelas exigências do devir, deu pleno valor a este conhecimento. Em ambos a epistemologia é movida pela metafísica, sendo que em Parmênides ela reconhece como válido apenas o conhecimento intelectivo, na condução da realidade ao que é estático, e, em Heráclito, ela reconhece, pelo contrário, apenas o conhecimento sensitivo como válido, através da condução da realidade ao que é dinâmico.
Já na metafísica de Platão há lugar, não somente para o ser estático de Parmênides, como também para o mundo em devir de Heráclito, pois para Platão a realidade se constitui de um estrato estático e de outro dinâmico. Daí pode-se notar a valorização na epistemologia platônica tanto ao conhecimento intelectivo quanto ao sensitivo, respectivamente para o mundo das idéias e para o mundo sensível.
A primeira obra de Platão que tenta abordar essa temática do conhecimento é Menon, onde aparece uma aporia com relação ao que se já se conhece e o que se é possível conhecer; em vista disso, Platão propõe que o conhecimento é anamnese, ou seja, é uma forma de recordação do que já existe desde sempre no interior da alma humana. Essa anamnese é apresentada em duas formas: uma mítica, vinculada às doutrinas órfico-pitagóricas, onde a alma é imortal e renasce muitas vezes, por isso já teria visto e conhecido toda a realidade, tanto neste quanto no outro mundo; a outra, dialética, e Platão a experimenta quando interroga um escravo sobre questões geométricas e, a partir do diálogo, este consegue acertar a resposta. Tanto no mitológico como no dialético, o conhecimento, acredita-se, vem de dentro da própria pessoa, extraindo de si mesmo verdades que não conhecia e as quais ninguém lhe ensinou. Isso se relaciona claramente com o método socrático que provavelmente influenciou o pensamento platônico em peso equivalente ao dado às doutrinas órfico-pitagóricas.
A anamnese explica de onde vem e como pode ser o conhecimento desde que haja, já na alma, a presença do verdadeiro. Platão, querendo melhor detalhar esse alcance da verdade, desenvolve etapas e modos específicos de realização deste conhecimento, que são explicitados em A República e nos diálogos dialéticos.
Platão parte do princípio que o conhecimento é proporcional ao ser. Quanto maior o grau de ser, maior o de cognoscibilidade e o mesmo no sentido inverso. À realidade intermediária que é mistura do ser e do não ser, que está entre as duas polaridades e é sujeito do devir, Platão chama sensível. Dentro desse intermediário, o filósofo descobre um conhecimento também intermediário entre ciência e ignorância, que chama ele doxa ou opinião.
Platão considera este tipo de conhecimento, que não é identificável ao conhecimento verdadeiro, como algo quase sempre enganador e por mais que seja verdadeiro, sua verdade não pode se provar, nem sequer se garantir, por si próprio. Está sempre sujeito a alterações, o que é característico do mundo sensível. Para que a opinião seja provada como verdadeira, a teoria platônica do conhecimento impõe que ela seja tratada com o expediente do raciocínio causal, experimentando-a através do conhecimento da causa, ou seja, da Idéia, levando-a a outro horizonte, agora não mais sensível, o que a faz deixar de ser opinião – doxa – para ser ciência – episteme.
Outra graduação criada por Platão está relacionada exatamente a estas duas formas do conhecimento. A primeira, que corresponde aos graus do sensível, divide-se em simples imaginação (eikasía) que se refere às sombras e às imagens sensíveis das coisas, e, em crença (pistis) que corresponde às coisas e aos próprios objetos sensíveis; a segunda, no entanto, relacionada aos dois graus do inteligível, dividindo-se em ciência intermediária (dianóia), que é um conhecimento intermediário ligado às coisas visíveis e também às hipóteses e ainda, como segundo nível da ciência, a inteleção pura (noesis) que se exerce através da captação pura das Idéias e do princípio supremo e absoluto do qual dependem todas elas.
Para contemplar o conhecimento, o homem deve caminhar desde a opinião até à ciência educando-se gradualmente, como contece no mito da caverna, onde os homens são como escravos que vêem sombras projetadas pelo fogo de fora (eikasía) e as tomam como realidade, por que não conhecem o que é verdadeiro; saindo da caverna não poderiam de imediato suportar a luz do sol; teriam que se habituar a olhar as sombras e as imagens refletidas (pistis), em seguida, as próprias coisas (diánoia) e só no fim de tudo poderia contemplar o sol (noesis). A caverna é, analogamente, o mundo sensível, quem dela sai, sabe que a verdadeira realidade está fora e não são sombras, sendo assim, parte do mundo das Idéias, ou mundo supra-sensível.
Por isso, para Platão, os homens comuns estão presos ao nível da opinião. Ao plano das ciências, os matemáticos conseguem ascender-se à diánoia, mas somente o filósofo à noesis e à ciência suprema. Isso porque o intelecto e a inteleção, tendo superado o mundo sensível captam as Idéias na sua pureza, que através de um processo de implicação e exclusão, que se denomina dialética, conduz à Idéia Suprema, o Incondicionado. Esse processo pode levar também tanto do sensível às Idéias, como pode ocorrer no sentido descendente, levando a extração de Idéias particulares das Idéias gerais. Desse modo, o filósofo é “o dialético”, pois percorre o caminho e realiza os processos.
Portanto, dentro dessa perspectiva da teoria do conhecimento em Platão, pode-se perceber de modo, ora aporético, ora bastante claro, que a partir de sua doutrina, seu pensamento e ensinamento na Academia, que o conhecimento, ou a verdade, como ele próprio se refere, é a captação e a apreensão do mundo das Idéias, através de um progressivo e reminiscente aprendizado, que leva a entender a forma como este mundo supra-sensível se estrutura e, por fim, a compreensão do lugar, do valor e do sentido que cada Idéia ocupa em relação às outras.
Finalmente, se como foi dito, recordar é se fazer aprender, a teoria platônica do conhecimento pode ajudar hoje na vida acadêmica de modo considerável, nem tanto no sentido sensível e supra-sensível que ele a deu, mas muito mais, no sentido de que o saber é um processo, no qual o próprio estudante é o sujeito. Por último, cabe lembrar do que disse Platão: “Aquilo que absolutamente é, é absolutamente cognoscível, aquilo que de nenhum modo é, de nenhum modo é cognoscível”. Faz entender o profundo sentido que ele dá ao mundo das Idéias, onde tudo é mais perfeito e onde está a real verdade, por isso, nele as coisas são mais absolutas que no mundo sensível e assim, mais possível de serem conhecidas plenamente. O conhecimento, em Platão, é, por fim, o cume do caminho percorrido, a verdade buscada e contemplada.

Cláudio Geraldo da Silva

REFERÊNCIAS

ABBAGNANANO, História da Filosofia. 3.ed. Lisboa: Editora Presença. 1984.
GOMES: Morgana. Platão. São Paulo: Minuano.
MONDIN, Batista. Curso de Filosofia. Vol. I. São Paulo: Paulus, 2007.
REALE, Giovanni; ANTISERE, Dario. História da Filosofia: Antiguidade e idade média. São Paulo: Paulus, 2005.